Economia Potencial
Polo moveleiro: como Bento virou potência nacional do móvel
Faltando 45 dias para a Movelsul, setor conta com cerca de 300 empresas e mais de 6 mil empregos, e projeta a Capital do Vinho na América Latina e vários lugares do mundo.
02/07/2026 09h07 Atualizada há 2 horas
Por: Marcelo Dargelio

Bento Gonçalves é conhecida pelo vinho, mas parte decisiva da força econômica da cidade vem da madeira. O polo moveleiro reúne cerca de 300 empresas, emprega mais de 6 mil pessoas e transformou o município em uma das maiores referências do móvel no Brasil. E é para cá que a indústria do móvel de toda a América Latina se volta a cada dois anos, na Movelsul Brasil, que em 2026 acontece de 17 a 20 de agosto.

Esta é a história de como uma cidade de imigrantes italianos, conhecida pelas parreiras, se tornou também a capital brasileira do móvel.

O que é o polo moveleiro de Bento Gonçalves

O polo moveleiro de Bento Gonçalves é o conjunto de indústrias de mobiliário concentradas na cidade e no seu entorno, na Serra Gaúcha. Segundo o Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), são cerca de 300 empresas, que empregam mais de 6 mil trabalhadores. É considerado o maior polo do país em número de peças produzidas, segundo o IEMI, e o principal motor do setor moveleiro gaúcho.

Não se trata apenas de fábricas: o polo reúne também fornecedores de matéria-prima, máquinas, tecnologia, design e logística — um ecossistema industrial completo em torno do móvel.

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Como surgiu a indústria de móveis em Bento Gonçalves

A origem do polo está na mesma raiz que deu à cidade o vinho: a imigração italiana. A partir de 1875, os imigrantes que chegaram à Serra Gaúcha trouxeram não só o conhecimento da videira, mas também ofícios como marcenaria e carpintaria — o domínio das técnicas de trabalho com a madeira e uma cultura de produção detalhista, voltada à durabilidade e ao acabamento refinado.

Fábrica de Acordeons Todeschini acabou dando origem ao sucesso do polo moveleiro

 

Um marco costuma ser lembrado como semente da indústria: em 1916, foi fundada em Bento Gonçalves a fábrica de acordeons Todeschini, que ganhou prestígio nacional. Com o tempo, a empresa deixou de produzir instrumentos e passou a fabricar móveis — um dos pontos de partida da indústria moveleira local. O nome Todeschini permanece, décadas depois, como uma das marcas mais conhecidas do país no segmento de móveis planejados.

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Por que Bento Gonçalves se tornou a capital do móvel

A vocação para a madeira encontrou, na segunda metade do século XX, as condições para virar indústria de escala. No final dos anos 1960, o setor moveleiro se consolidava na cidade e, em poucos anos, se firmava como a principal atividade econômica do município.

Realização da primeira Movelsul Brasil mudou definitivamente a história do setor moveleiro de Bento Gonçalves 

 

O ponto de virada tem uma data simbólica: 1977, ano da fundação do Sindmóveis e da primeira edição da Movelsul. Organização setorial e feira de negócios nasceram praticamente juntas, e foi essa combinação — indústria organizada mais vitrine comercial — que projetou Bento nacional e internacionalmente. A cidade passou a atrair compradores, qualificar o varejo e exportar seus móveis para o mundo.

Setor conta com mais de 300 empresas e gera mais de 6 mil empregos diretos

 

Há um dado que resume a força do setor: ao se consolidar, o polo moveleiro superou o tradicional e centenário setor vitinícola como principal atividade econômica de Bento Gonçalves.

Isso não significa que o vinho perdeu importância — ele segue sendo a identidade cultural e turística da cidade. Mas, em geração de emprego e faturamento industrial, o móvel assumiu a liderança. Os dois setores, aliás, nasceram do mesmo tronco: a habilidade manual e a cultura do trabalho que os imigrantes italianos trouxeram na bagagem. Onde uns cultivaram a uva, outros moldaram a madeira — e a cidade prosperou nas duas frentes.

O que é a Movelsul e por que ela acontece em Bento Gonçalves

Movelsul Brasil chega em agosto cercada de muitas expectativas

 

A Movelsul Brasil é a maior feira de móveis da América Latina, realizada em Bento Gonçalves desde 1977. Acontece a cada dois anos e reúne mais de 30 mil visitantes profissionais de todo o mundo — lojistas, redes varejistas, home centers, arquitetos, designers e especificadores — em torno da indústria de móveis, colchões, estofados e decoração.

A 25ª edição será realizada de 17 a 20 de agosto de 2026, no Parque de Eventos de Bento Gonçalves. A feira reúne mais de 200 marcas, com cerca de 90% da área expositora já comercializada, e traz novidades como novo palco de palestras, Lounge VIP e happy hour de integração entre expositores e varejistas. Mais do que gerar negócios, a Movelsul funciona como plataforma de relacionamento e qualificação para o varejo moveleiro brasileiro — e reafirma Bento como o centro nervoso do setor.

Como está o polo moveleiro em 2026

O ano de 2026 começou desafiador para o setor. No primeiro trimestre, as cerca de 300 empresas do polo faturaram R$ 803,4 milhões — queda de 3,87% em relação ao mesmo período de 2025, ano em que o faturamento somou R$ 3,7 bilhões. O cenário reflete crédito mais restrito, juros elevados e retração no consumo de bens duráveis.

Tarifaço de Trump mudou a rota das exportações de móveis em Bento Gonçalves

 

Uma mudança chamou atenção no comércio exterior: os Estados Unidos caíram da primeira para a quarta posição entre os mercados compradores, efeito das tarifas implementadas pelo governo norte-americano. As exportações do trimestre somaram US$ 13,4 milhões, 1,33% abaixo do ano anterior.

Ainda assim, houve sinal positivo no emprego: o setor criou 65 vagas formais no início do ano, elevando para 6.179 o número de trabalhadores. É nesse contexto de desafios e reorganização de mercados que a Movelsul 2026 ganha peso estratégico — uma oportunidade de a indústria de Bento buscar novos compradores e reduzir a dependência de mercados afetados pelas tarifas.

Uma indústria feita de mãos e madeira

Mais de um século depois da fábrica de acordeons que virou fábrica de móveis, o polo moveleiro de Bento Gonçalves continua sendo uma das colunas que sustentam a cidade. Ele emprega milhares de famílias, projeta o nome de Bento para fora do Brasil e mantém viva uma tradição que começou nas mãos calejadas dos primeiros imigrantes.

Quando um lojista de outro estado abre um catálogo de móveis, quando uma casa é mobiliada em qualquer canto do país, há uma boa chance de que parte daquilo tenha nascido em Bento Gonçalves — na mesma terra que faz o vinho, moldada pela mesma gente que aprendeu, há 150 anos, que trabalho bem-feito dura.


Por que essa história continua importante?

Porque o polo moveleiro é, ao lado do vinho, um dos dois pilares que sustentam a economia de Bento Gonçalves e definem sua identidade. Entender como a cidade se tornou a capital brasileira do móvel — e acompanhar seus desafios, como o impacto das tarifas e o papel da Movelsul — ajuda a compreender o presente e o futuro de milhares de famílias que vivem do setor. É uma história de trabalho e reinvenção que segue sendo escrita a cada edição da feira.