Segurança Operação Placebo
Polícia prende empresário por fornecer remédios falsos contra o câncer
Investigação aponta participação de oncologista e advogados em esquema na Fronteira Oeste; das 39 vítimas identificadas, oito morreram durante o tratamento
29/06/2026 09h22
Por: Redação
Foto: Reprodução

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou, na manhã desta segunda-feira (29), a "Operação Placebo". A ofensiva cumpre 57 mandados de busca e apreensão e uma ordem de prisão preventiva para desarticular um esquema criminoso suspeito de fornecer medicamentos oncológicos falsificados, faturados com verbas públicas obtidas por meio de decisões judiciais. A fraude ocorria na região da Fronteira Oeste do Estado e as investigações já identificaram 39 pacientes lesados pelo grupo, dos quais oito morreram no decorrer do tratamento.

O principal alvo da operação e único preso até o momento é o empresário Lisandro Henriques Hermes, apontado pelas autoridades como o líder e articulador do núcleo empresarial. Segundo a Delegacia de Polícia de São Gabriel, responsável pelo caso, Lisandro controlava, de forma direta ou por meio de "laranjas", empresas de fachada que participavam das concorrências de preços apresentadas à Justiça para a compra dos remédios de alto custo, entre as quais a Licifarma e a LH Medicamentos.

O papel de médicos e advogados na fraude

O esquema contava com uma engrenagem que envolvia outras áreas profissionais para captar e direcionar as vítimas:

A farsa começou a ser descoberta quando uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel desconfiou de frascos do medicamento Enhertu (usado contra o câncer de mama avançado). A profissional notou desproporção no tamanho das embalagens e erros grotescos de grafia nos rótulos. Durante a prisão do empresário, dezenas de caixas de remédios e cartelas sem identificação foram apreendidas. Ele negou as acusações e vínculos com os demais investigados.

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Alerta da Anvisa e do Laboratório

A gravidade do caso coincide com sanções recentes emitidas pelos órgãos de controle federal. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou em fevereiro de 2026 a Resolução-RE nº 641, proibindo a circulação do lote 416466 do medicamento Enhertu após a fabricante, Daiichi Sankyo Brasil, denunciar a presença de tampas metálicas pintadas de amarelo no mercado, quando as originais possuem acabamento de plástico. O laboratório reforçou que colabora com as investigações e orienta hospitais e clínicas a comprarem insumos apenas de distribuidores homologados.

Esquemas de desvio de verbas de saúde e falsificação de insumos médicos de alta complexidade acendem o alerta de fiscalização em todo o Rio Grande do Sul. Na Serra Gaúcha, onde a judicialização para a obtenção de tratamentos de alto custo contra o câncer é recorrente nas secretarias municipais de saúde, o rigor técnico no recebimento de medicamentos é uma prioridade administrativa. Municípios polo como Bento Gonçalves mantêm estruturas de controle farmacêutico rigorosas em suas redes hospitalares e secretarias para auditar a procedência de lotes e distribuidoras, garantindo que os pacientes recebam produtos originais e que os recursos públicos sejam protegidos contra máfias e fraudes assistenciais.