A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou, na manhã desta terça-feira (16), uma importante ofensiva para desarticular uma sofisticada organização criminosa especializada em estelionato digital de âmbito nacional. O grupo é responsável pelo chamado "golpe do falso boleto", um esquema que lesou clientes de instituições financeiras em pelo menos três estados do país.
A ação foi coordenada pela Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos, sob a liderança do delegado João Vitor Herédia. As equipes policiais foram a campo para cumprir mandados de prisão preventiva e ordens de busca e apreensão contra quatro investigados centrais da associação criminosa. De acordo com as apurações, o bando funcionava com uma estrutura hierárquica idêntica à de uma empresa privada, contando com divisão rígida de tarefas que envolviam desde a falsificação de documentos até o uso de perfis falsificados em plataformas de internet.
Os documentos gerados tinham uma aparência visual idêntica às faturas verdadeiras, incluindo o CNPJ real das credoras para enganar as vítimas.
A investigação policial detalhou que a organização criminosa operava de forma altamente estratégica, dividindo o fluxo do crime em quatro fases operacionais:
Captação de Alvos no Reclame Aqui: Os criminosos monitoravam continuamente a plataforma pública de reclamações. O foco eram clientes que postavam queixas sobre dificuldades para receber boletos de quitação antecipada de empréstimos junto a financeiras;
Falsificação de Documentos: Os suspeitos utilizavam boletos originais emitidos pelo Banco Inter em nome de um dos próprios integrantes da quadrilha. Eles alteravam os metadados do documento, substituindo o beneficiário real pelo nome da financeira reclamada;
Desvio de Valores: Ao pagar a fatura adulterada, a vítima enviava o dinheiro diretamente para a conta do operador financeiro do grupo. Este participante ficava com uma comissão de 10% do valor total apenas por ceder a conta e gerar as guias;
Trilha Financeira: Com autorização do Poder Judiciário, a polícia realizou a quebra dos sigilos telefônico, telemático e informático. O cruzamento de dados provou que o e-mail usado no golpe foi gerado no mesmo dia do crime e localizou tentativas de fraudes individuais de até R$ 23.120,88.
Todos os quatro alvos identificados pelas autoridades policiais são residentes do estado de São Paulo. O líder e operador central do esquema é um homem de 35 anos, responsável pela parte técnica do golpe e que detinha acesso privilegiado ao sistema de uma das financeiras vítimas (ele já possuía antecedentes pelo mesmo crime em 2021). A sua companheira, de 28 anos, atuava no suporte estrutural da logística. O braço financeiro era liderado por uma mulher de 33 anos, titular da conta que recebia os valores, enquanto um homem de 30 anos, com antecedentes por furto e estelionato, fazia a articulação de campo.
O delegado João Vitor Herédia destacou que o sucesso da operação reforça o combate qualificado aos crimes cibernéticos que usam a engenharia social para enganar a boa-fé dos cidadãos.