Enquanto centenas de famílias em Bento Gonçalves enfrentam uma angustiante espera por uma vaga na Educação Infantil, uma apuração profunda revela um cenário alarmante de descaso administrativo, inércia e falhas graves de gestão por parte da Secretaria Municipal de Educação (Smed). O município mantém dezenas de vagas sem uso na rede privada parceira, deixando crianças em casa com as mães, que ficam impedidas de trabalhar. Em alguns casos, as creches estão a cerca de duas quadras de distância das casas das famílias.
A reportagem do NB Notícias teve acesso a informações exclusivas dos bastidores do sistema de compra de vagas da Educação Infantil de Bento Gonçalves. Sob a condição de absoluto anonimato, por medo de severas retaliações políticas e rescisão de contratos, a diretora de uma das escolas particulares credenciadas fez uma denúncia contundente. Segundo ela, existem cadeiras vazias e prontas para receber alunos desde o mês de abril, mas a Smed simplesmente não encaminha as crianças da fila de espera. "Acho um descaso com as famílias, e conosco, pois temos que contratar funcionários contando com as vagas e nada", desabafa a diretora.
A denúncia vai além e expõe a tática da administração municipal, através da SMED, para esconder a própria incompetência. De acordo com o relato, as escolas são proibidas de dar transparência ao processo: "Dizem que não podemos falar para as famílias que buscam a escola que tem vaga, que são eles [a Smed] que dizem se tem ou não", denuncia a diretora.
A face mais cruel dessa engrenagem burocrática e opaca rebate diretamente na vida dos cidadãos. É o caso de Vanessa Lamb, moradora do bairro Humaitá. Seu filho de 3 anos, foi vítima do severo problema de zoneamento do município. Ignorando a proximidade residencial, a prefeitura disponibilizou uma única vaga para o menino em uma escola distante, no bairro Borgo. O que deveria ser um direito transformou-se em um pesadelo familiar. Ao frequentar o local, a criança passou a manifestar graves traumas psicológicos e retrocessos comportamentais,
incluindo pânico de barulhos, terror noturno e regressão física, urinando e evacuando nas calças devido ao estresse.
Desesperada, Vanessa solicitou a transferência à Smed. A urgência era redobrada: a mãe sofre de Neuralgia do Trigêmio, uma doença crônica, sem cura e severamente incapacitante que, nos momentos de crise, a impossibilita de cuidar da criança. Mesmo com vagas em duas escolas de Educação Infantil a cerca de duas quadras de sua casa, Vanessa ficou sem respostas da SMED. Ela precisou levar o filho para o trabalho e recorrer ao Ministério Público. Mesmo assim, a solução só veio através da pressão midiática: logo após o NB Notícias questionar formalmente a prefeitura, a Smed recuou e concedeu a vaga pleiteada cerca de 10 minutos após o contato da reportagem.
A Secretaria Municipal de Educação enviou uma nota oficial com os dados do sistema. A Smed informou que, no início do ano, empenhou 1.094 vagas em instituições de ensino particulares. Desse total, 1.007 encontram-se preenchidas, o que significa que 87 vagas compradas permanecem vazias.Perguntada sobre o motivo de as vagas remanescentes estarem desocupadas há quase dois meses, enquanto 268 crianças aguardam na lista de espera por uma creche, a Smed alegou que a culpa é da recusa dos pais. "Em diversas situações, as famílias optam por aguardar vaga na rede pública municipal" ou "manifestam interesse por instituições cujas vagas contratadas já se encontram integralmente
preenchidas".
A Smed negou que o município esteja jogando dinheiro público fora com as salas vazias, ressaltando que "as vagas empenhadas somente são remuneradas à instituição de ensino quando a criança é encaminhada pela Central de Vagas, devidamente matriculada e com frequência
regular". Sobre as falhas de zoneamento que afetam mães que moram ao lado de escolas com vagas, a secretaria defendeu-se afirmando que segue critérios de edital e decreto, observando o limite máximo legal de dois quilômetros de distância entre a residência da criança e a instituição.