A trajetória industrial no Rio Grande do Sul, construída ao longo de décadas e sustentada por arranjos produtivos consolidados – como os polos da indústria química, calçadista, automotiva e metalmecânica –, posiciona o Estado em um novo momento estratégico: a integração às cadeias globais da economia de baixo carbono. Além da disponibilidade de recursos, o diferencial gaúcho está na capacidade de inovação, que vem sendo mobilizada para impulsionar a transição energética e estruturar novas agendas produtivas. Com ações alinhadas ao Plano de Desenvolvimento Econômico, Inclusivo e Sustentável, e trabalho conjunto entre poder público e iniciativa privada, o Estado avança na transição energética.
Esta matéria integra uma série de conteúdos publicada ao longo desta semana para marcar o Dia da Indústria, destacando o desempenho e os desafios do setor e também as políticas públicas voltadas ao fortalecimento da competitividade, da atração de investimentos e da transformação produtiva do Rio Grande do Sul.
Vantagens locais e base industrial
A estratégia do governo estadual apostou em vantagens competitivas locais, como a abundância de fontes renováveis – especialmente energia eólica e solar – e a forte base industrial. A possibilidade de produzir hidrogênio verde a partir de resíduos industriais exemplifica a integração entre inovação e economia circular, agregando valor a cadeias tradicionais e reduzindo a dependência de insumos importados, como fertilizantes nitrogenados.
Com base nesse cenário, o Estado anunciou, no segundo semestre de 2025, um investimento de R$ 100 milhões e consolidou o primeiro Programa Estadual de Fomento à Descarbonização Industrial no Brasil. A iniciativa tem como propósito liderar, de forma justa e inclusiva, a transição energética no Brasil. Dessa forma, as ações de descarbonização reúnem esforços para reduzir emissões de gases de efeito estufa, ampliar o uso de fontes de energia limpa e promover a adaptação e a resiliência climática, seguindo as metas globais de preservação ambiental.
Na ocasião, foi lançado um edital que representou o primeiro instrumento público de fomento direto à inovação em descarbonização industrial no Brasil em escala estadual, reafirmando o compromisso do Rio Grande do Sul com a neutralidade climática e o desenvolvimento sustentável. A iniciativa busca estimular a pesquisa, a tecnologia e a industrialização de soluções de baixo carbono, promovendo geração de emprego, renda e competitividade para a indústria gaúcha.
Os projetos selecionados são das empresas Âmbar Sul Energia, para uma planta industrial no município de Candiota, que vai produzir hidrogênio verde a partir de energia solar fotovoltaica; Tramontina, para produção de H2V por eletrólise da água, utilizando energia renovável certificada, na unidade de cutelaria de Carlos Barbosa; Be8, que vai instalar, em Passo Fundo, um posto de abastecimento de H2V produzido a partir de etanol; e Rodoplast, que vai implantar uma unidade de produção integrada ao sistema de gestão de resíduos sólidos urbanos no município de Vacaria.
Outro ponto são as empresas de energia renovável. Destacam-se empreendimentos industriais como o complexo de biodiesel Soli3, em Cruz Alta; a Biometano Sul, em Minas do Leão, voltado à produção de biometano; e a BeGreen, em Tio Hugo, focada na fabricação de fertilizantes nitrogenados.
O contexto é reforçado pela forte presença do Estado como polo de inovação e tecnologia. Despontando em primeiro lugar no quesito Inovação do Ranking de Competitividade dos Estados realizado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), o RS conta com um dos principais ecossistemas de inovação do Brasil, com uma estrutura robusta de polos, parques e incubadoras tecnológicas, que possibilitam aproximação entre empresas, instituições de ensino e pesquisa e governo.
Segundo informações do Observatório da Inovação RS/Sict, o sistema de inovação do RS conta com 22 parques e 67 incubadoras tecnológicas, 167 Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) e 57 Núcleos de Inovação. Esse trabalho em conjunto constitui um dos mais importantes instrumentos de desenvolvimento tecnológico e consolida o território gaúcho como um laboratório de políticas industriais articuladas à transição energética e digital, com participação ativa de universidades, centros de pesquisa e setor produtivo.
Potencial para mineração
O RS ocupa a 9ª posição na produção mineral brasileira e movimentou mais de R$ 2,8 bilhões em 2023 – o que correspondeu a cerca de 2,3% da indústria estadual. O Estado também concentra aproximadamente 90% das reservas nacionais de carvão mineral e registra iniciativas em agrominerais e na pesquisa de novos recursos, como terras raras.
A estrutura mineral do Estado é composta por diferentes segmentos, com destaque para carvão mineral, rochas britadas, água mineral, calcário e areia. No campo dos agrominerais, projetos como o Fosfato Três Estradas, em Lavras do Sul, estão relacionados à produção de insumos utilizados na agricultura, em especial fertilizantes.
Segundo a nota técnica produzida pelo governo do Estado, por meio do Departamento de Economia e Estatística (DEE), da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), estudos realizados em Caçapava do Sul, no Centro-Sul do Estado, identificaram rochas com alta concentração de elementos de terras raras e minerais associados a aplicações industriais e tecnológicas.
Além disso, a gestão e a regulação do setor para avançar em projetos estratégicos para exploração da indústria mineral – com segurança e garantia da sustentabilidade ambiental – avançou recentemente. O governo publicou as portarias da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) que tratam do zoneamento ambiental da atividade minerária no Lago Guaíba.
Durante o ato de assinatura, ocorrido na segunda-feira (25/5), o governador Eduardo Leite destacou que a iniciativa representa um avanço na organização territorial e na conciliação entre desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental. “Esse zoneamento não foi feito de maneira simples, mas com estudos biológicos, geofísicos, de toxicidade e de dinâmica hídrica, sempre com respeito à ciência e ao meio ambiente. O Estado construiu uma base técnica sólida para garantir segurança jurídica, proteção ambiental e desenvolvimento sustentável”, explicou na ocasião.
O secretário de Desenvolvimento Econômico, Leandro Evaldt, reforça a estratégia estadual de alinhar crescimento econômico à sustentabilidade, conforme previsto no Plano de Desenvolvimento Econômico, Inclusivo e Sustentável. “Estamos construindo um futuro em que o Rio Grande do Sul será referência em bioenergia e hidrogênio verde, garantindo desenvolvimento econômico com preservação ambiental e geração de oportunidades”, afirma.
Para Evaldt, ao articular financiamento, inovação e política industrial, no sentido de promover crescimento econômico com sustentabilidade, o RS se posiciona como protagonista na transição energética com foco na geração de emprego, renda e competitividade para a indústria gaúcha.
Tradição e potencial
A convergência entre tradição industrial e potencial energético coloca o RS em posição estratégica para se consolidar como um hub industrial da economia verde na América do Sul. É com foco nesse propósito que o governo gaúcho vem articulando as políticas de inovação, transição energética e desenvolvimento sustentável como um caminho para transformar esse potencial em resultados concretos.
O avanço dessas agendas também reforça o papel do setor industrial como motor de transformação econômica e social. Ao investir em tecnologias limpas, cadeias produtivas inovadoras e soluções sustentáveis, o governo aponta para um modelo de desenvolvimento que combina competitividade global, justiça social e preservação ambiental, elementos essenciais para o futuro da indústria gaúcha e brasileira.
Texto: Luciene Leszczynski/Ascom Sedec
Edição: Secom