Economia Negócios
Mentalidade executiva influencia o PIB, aponta economista
Dados da Gallup apontam que o baixo engajamento custa US$ 8,9 trilhões em produtividade perdida por ano, equivalente a 9% do PIB global. Para a eco...
25/05/2026 10h59
Por: Redação Fonte: Agência Dino

O estado emocional de líderes empresariais influencia diretamente a tomada de decisão e, por consequência, o desempenho econômico do país. A tese, respaldada pela economia comportamental, aponta que decisões tomadas sob desregulação emocional comprometem a alocação de capital, a inovação e a produtividade das equipes, com efeitos que se propagam pela cadeia produtiva e impactam o Produto Interno Bruto (PIB).

Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia de 2002, demonstrou que agentes econômicos não operam com a racionalidade idealizada pela teoria neoclássica. Vieses cognitivos e estados emocionais distorcem sistematicamente as decisões. Quando aplicado ao ambiente corporativo, o fenômeno ganha escala: um CEO ou empresário emocionalmente desregulado toma decisões que afetam fornecedores, empregos e, em última instância, o PIB.

O custo invisível do engajamento perdido

Os dados da Gallup State of the Global Workplace 2024 revelam que apenas 23% dos trabalhadores no mundo se declaram engajados no trabalho. O custo estimado dessa desconexão é de US$ 8,9 trilhões em produtividade perdida anualmente, equivalente a 9% do Produto Interno Bruto (PIB) global. No Brasil, o índice de engajamento não ultrapassa 27%. O Future of Jobs Report 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, aponta inteligência emocional, resiliência e liderança humanizada entre as competências mais demandadas pelas empresas na próxima década.

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Para Érica Hatori, economista e mentora executiva, os números indicam uma mudança de paradigma na gestão. "O mercado está precificando emoção — não como soft skill decorativa, mas como vantagem competitiva estrutural num ambiente de alta volatilidade e transformação acelerada", afirma.

Neurociência aplicada à liderança: o que os espelhos têm a ver com produtividade

A descoberta dos neurônios-espelho pelo neurocientista Giacomo Rizzolatti identificou um mecanismo pelo qual estados emocionais se propagam em grupos. Daniel Goleman, pesquisador no campo da inteligência emocional aplicada a organizações, documentou que líderes com alta regulação emocional geram climas organizacionais mais produtivos do que aqueles emocionalmente instáveis.

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Hatori relaciona esses estudos ao ambiente corporativo. "O sistema nervoso de uma equipe captura e replica os sinais emocionais do líder: sua ansiedade, sua serenidade, sua confiança ou seu medo", diz. Para a economista, a implicação é direta: quando o ambiente interno de uma empresa é dominado por insegurança crônica, o custo cognitivo de cada colaborador aumenta, a criatividade recua e a rotatividade cresce. O custo de reposição de um profissional varia entre 50% e 200% do seu salário anual, conforme estimativas do Society for Human Resource Management.

Técnica sem mentalidade: o teto de vidro que os currículos não explicam

A pesquisa de Tasha Eurich sobre autoconsciência, publicada na Harvard Business Review, indica que apenas 10% a 15% das pessoas que acreditam ser autoconscientes de fato o são. No ambiente executivo, essa lacuna pode se manifestar em decisões influenciadas por fatores emocionais não gerenciados.

Com base em mais de 25 anos de atuação em empresas familiares, multinacionais e nacionais, Hatori descreve um padrão recorrente no ambiente executivo. "Profissionais que estagnam não por falta de competência, mas por padrões emocionais limitantes que se traduzem em decisões subótimas, relacionamentos desgastados e incapacidade de escalar equipes. O problema nunca era o que eles sabiam. Era como processavam pressão, ambiguidade e conflito", destaca.

A palestra que conecta os pontos

Com base nessas premissas, Hatori estruturou a palestra "Suas emoções decidem o quanto o PIB produz". "O estado emocional do tomador de decisão é uma variável macroeconômica. Não é uma metáfora motivacional — é uma afirmação com lastro em dados de engajamento, neurociência e comportamento organizacional", define a economista.

A estrutura da palestra percorre cinco eixos: como o sistema límbico interfere em decisões estratégicas; por que engajamento é um indicador econômico, não apenas de RH; o papel dos neurônios-espelho na propagação do clima organizacional; a conexão entre bem-estar do líder e performance financeira de sua equipe; e o que Hatori denomina PIB redefinido — Propósito, Inteligência Emocional e Bem-estar — como arquitetura interna de resultados sustentáveis.

A variável que faltava no modelo

"Enquanto o debate econômico se concentra em taxa de juros, câmbio e política fiscal, uma variável silenciosa move ou destrói bilhões em valor. Cada reunião em que um líder reage a partir do medo em vez da clareza, cada decisão tomada sob estresse crônico não gerenciado, cada equipe que opera no modo de sobrevivência porque o gestor não desenvolveu autorregulação: tudo isso tem custo econômico mensurável", acentua Hatori. "Ignorar o estado emocional do líder não é neutralidade técnica. É um custo que o PIB continua pagando", completa a economista.

A boa notícia, segundo a especialista, é que essa variável é desenvolvível. Diferentemente de juros ou câmbio, o estado emocional de um líder pode ser trabalhado e calibrado.