Bento Gonçalves enfrenta um problema crônico na oferta de vagas para o ensino infantil que continua a gerar transtornos graves para as famílias locais. O caso mais recente envolve Thaís Vidal da Cruz, de 31 anos, moradora do bairro Humaitá, que vive um impasse dramático. Aprovada em um concurso público municipal, ela não pode assumir o cargo por não ter onde deixar as filhas gêmeas de um ano. O relato expõe a falha na gestão de zoneamento da Secretaria Municipal de Educação (SMED), que oferece vagas em bairros distantes, ignorando a realidade logística e financeira das mães solo ou desempregadas.
Thaís alcançou a 6ª colocação no último concurso da prefeitura para o cargo de Auxiliar de Educação Infantil. Ironicamente, a profissional que deveria estar cuidando das crianças da rede municipal está impedida de trabalhar, justamente, pela falta de serviço da rede que a contrataria. Sem o amparo de uma vaga próxima, ela precisou solicitar o deslocamento para o fim da fila de chamadas, na esperança de que a situação se resolva antes de uma segunda convocação.
Thaís está atualmente desempregada e precisa sustentar as duas filhas e pagar aluguel. "Eu tive que pedir pra ficar no fim da fila... eu não consegui assumir o concurso", lamenta a mãe.
O sistema de zoneamento, que deveria garantir que a criança estude perto de sua residência, parece não funcionar na prática. Mesmo residindo no Humaitá, onde Thaís identifica quatro unidades próximas — EMI Humaitá, Recanto do Beija-flor, Feliz da Vida e Be Happy — a SMED ofereceu vagas apenas em creches particulares conveniadas no bairro São Francisco.
A oferta ignora que a mãe não possui veículo e teria que percorrer longas distâncias a pé com as bebês no colo. Em resposta oficial via mensagens, a Central de Vagas limitou-se a informar que "não abriram vagas mais próximas para a idade delas".
Outro ponto crítico é a insuficiência do subsídio municipal nas escolas conveniadas. Segundo a informação repassada pela mão, a prefeitura paga o valor fixo de R$ 1.445,00 por vaga. No entanto, a regra estabelece que a prefeitura não se responsabiliza por despesas extras, materiais ou transporte. Caso a mensalidade da escola seja superior ao repasse, a família deve arcar com a diferença. "Eu vou trabalhar pra pagar pra elas ir pra escola", critica Thaís, ressaltando que o valor restante e os custos de deslocamento inviabilizam o emprego.
Questionada sobre o caso, a Secretaria Municipal de Educação informa que foi disponibilizada vaga adquirida na rede conveniada para as crianças permanecerem juntas, em conformidade com a legislação vigente, em unidade localizada a aproximadamente 2 km da residência da família. No entanto, a opção oferecida não foi aceita pelos responsáveis.
A resposta da secretaria, contudo, não resolve o impasse logístico de uma mãe que não possui transporte próprio para deslocar dois bebês de colo por dois quilômetros diariamente, especialmente em uma cidade com relevo acidentado. A situação levanta um questionamento inevitável sobre a eficiência da administração pública: como o governo municipal pode exigir que a população trabalhe e reduza a dependência de benefícios sociais se não oferece a infraestrutura básica de cuidado infantil de forma acessível?
O "calvário" relatado por Thaís demonstra que a falta de planejamento no zoneamento é uma barreira real que mantém mães presas ao desemprego. Diante do descaso, ela afirma que buscará medidas judiciais caso perca a oportunidade definitiva de assumir o concurso. "Eu tô à mercê da boa vontade da SMED de me ceder uma vaga", conclui.