Justiça À espera de justiça
Família vive clima de medo após soltura de autor de feminicídio em Bento
Ministério Público explica que estado de saúde mental de Milton Gobatto motivou a liberdade provisória.
11/05/2026 12h00
Por: Marcelo Dargelio
Elisa e Vera Montiel querem justiça pela morte da irmã Jane - Foto: Reprodução

Você conhece aquele ditado antigo que diz: "Quem perde, é quem morre"? Pois este é o sentimento que toma conta da família de Jane Cristina Montiel Gobatto, brutalmente assassinada pelo companheiro que não aceitava o fim do relacionamento. O crime aconteceu em abril de 2025, no bairro Santa Rita, em Bento Gonçalves, e, enquanto Jane está sepultada em um cemitério, o autor do crime, Milton Gobatto, de 65 anos, dorme em uma cama quentinha em sua casa, após conseguir liberdade provisória.

Um misto de raiva e temor tomam conta dos familiares da vítima.  Elisângela Montiel, irmã da vítima, procurou a reportagem do NB Notícias para manifestar o profundo temor de encontrar o homem que tirou a vida de Jane com golpes de faca. Ela revela que a família se sente tremendamente injustiçada ao ver o assassino da irmã, vivendo livremente, como se nada tivesse acontecido. "É inacreditável que tenhamos que conviver com essa dor de perder nossa irmã e ainda saber que não aconteceu nada com o autor desse crime bárbaro", desabafou.

Diante do apelo da família, a reportagem questionou o Ministério Público (MPRS) sobre os fundamentos da decisão judicial que concedeu a liberdade ao acusado. Em nota oficial, a 1ª Promotoria de Justiça Criminal de Bento Gonçalves detalhou os trâmites que levaram à soltura e o
atual estágio do processo.

Por que o acusado foi solto?

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A soltura de Milton Gobatto foi determinada pela 1ª Vara Criminal de Bento Gonçalves, em 10 de junho de 2025, menos de dois meses após o crime. Segundo a Promotoria, a magistrada substituiu a prisão preventiva por medidas cautelares, baseando-se em quatro fatores principais: primariedade (ausência de antecedentes), idade avançada, superlotação carcerária e, primordialmente, o quadro clínico do réu.

De acordo com o Ministério Público, Milton Gobatto apresenta um estado de depressão grave com ideação suicida. O MP explicou que, embora tenha se manifestado inicialmente contra a liberdade, decidiu não recorrer da decisão após analisar os riscos. A lógica técnica é rigorosa: se o réu cometesse suicídio dentro do sistema prisional, ocorreria a extinção da punibilidade. Ou seja, o processo seria encerrado sem que ele fosse julgado e condenado. O objetivo do órgão ministerial é garantir que Milton mantenha condições mentais para enfrentar o Tribunal do Júri e ser efetivamente responsabilizado.

A questão da tornozeleira e o Incidente de Insanidade

Um dos pontos que causa maior estranheza à família é a ausência de monitoramento eletrônico. O Ministério Público esclareceu que a tornozeleira foi utilizada apenas em caráter excepcional enquanto Milton estava internado para tratamento cardiológico sob custódia. Ao conceder a liberdade provisória, a Justiça não incluiu o uso do equipamento como condição, impondo apenas o comparecimento a todos os atos do processo e o tratamento psiquiátrico obrigatório (via CAPS ou médico particular).

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Atualmente, o processo principal está com o curso suspenso. Isso ocorre devido à instauração de um Incidente de Insanidade Mental, procedimento obrigatório quando há dúvidas sobre a saúde mental do réu na época do fato. O MP aguarda a perícia oficial do Instituto-Geral de Perícias (IGP) para que a ação penal possa ser retomada.

Orientações à família e vigilância

O Ministério Público expressou solidariedade ao sentimento de insegurança dos familiares de Jane e reforçou que está fiscalizando periodicamente o cumprimento das medidas por parte do réu, requisitando relatórios ao Hospital Tacchini e ao CAPS. A orientação para Elisângela e demais familiares é clara: caso se sintam intimidados ou presenciem qualquer comportamento inadequado de Milton Gobatto, devem registrar imediatamente uma ocorrência policial ou comunicar a Promotoria. Qualquer descumprimento das regras ou nova ameaça poderá ensejar o pedido de uma nova prisão preventiva.