O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que prevê a redução gradual das tarifas de importação de produtos como vinhos, queijos e chocolates, acendeu um sinal de alerta na indústria vitivinícola brasileira. Se por um lado o consumidor ganha poder de compra, por outro, a cadeia produtiva nacional teme não sobreviver à disparidade competitiva.
Hoje, a importação de vinhos europeus para o Brasil recolhe taxas que variam de 17% a 35%. O tratado estabelece a eliminação gradativa dessa cobrança ao longo dos próximos anos. Na prática, o consumidor encontrará rótulos de Portugal, Espanha e Itália com preços muito mais acessíveis nas gôndolas dos supermercados. O avanço é comemorado por importadores, mas expõe uma fratura profunda na economia nacional.
A resposta reside na desigualdade de condições. Na Europa, o vinho é tradicionalmente tratado como alimento e patrimônio cultural, contando com pesados subsídios governamentais e incentivos para exportação. No Brasil, a bebida enfrenta um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo.
Em nota oficial recente, o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) esclareceu que não há oposição institucional ao livre mercado, mas à "assimetria existente entre o tratamento dado ao vinho no Brasil e aquele praticado em países concorrentes". A entidade alerta que o avanço do acordo sem contrapartidas internas aprofunda desvantagens históricas.
Esse diagnóstico é ecoado por líderes de mercado. Maurício Salton, diretor-presidente da vinícola Salton, afirmou recentemente que a indústria nacional não teme o comércio aberto, mas "precisa de condições mínimas para competir".
Atualmente, um vinho brasileiro já possui cerca de 30% de seu valor atrelado a impostos. Representantes e analistas econômicos apontam para um cenário de "protecionismo reverso": com a regulamentação da nova reforma tributária e o enquadramento no Imposto Seletivo (o chamado "imposto do pecado"), a tributação do vinho nacional pode superar a barreira dos 50%, inviabilizando o escoamento frente à invasão dos rótulos europeus isentos de tarifa.
Para evitar um estrangulamento que afeta desde o trabalhador rural até o turismo na Serra Gaúcha, entidades setoriais cobram de Brasília o reconhecimento imediato do vinho como atividade agroindustrial estratégica e a readequação regulatória para dar sobrevida à produção brasileira.