Saúde Descaso
Paciente aguarda por urologista 4 dias e não é atendido em Bento Gonçalves
Homem de 48 anos ficou quatro dias com dores crônicas na UPA 24 Horas e, mesmo assim, não conseguiu atendimento.
12/04/2026 16h36
Por: Marcelo Dargelio
Aleandro Baggio foi mantido apenas com doses de morfina durante quatro dias na UPA 24 Horas - Foto: Ilustração feita com IA

A dor crônica e a incerteza tornaram-se a rotina do motorista Aleandro de Lima Baggio, de 48 anos. Diagnosticado com uma pedra no rim que exige intervenção cirúrgica, o morador de Bento Gonçalves tenta há 10 dias por uma avaliação com um médico urologista pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O caso expõe um problema que vem se agravando na saúde pública da cidade: a dificuldade e a demora no acesso a consultas com especialistas.

O calvário de Baggio começou no dia 2 de abril, quando as dores o forçaram a buscar socorro na UPA 24 Horas do município. Na ocasião, ele permaneceu internado durante dois dias, recebendo doses de morfina para suportar as crises. Sem qualquer informação sobre quando seria avaliado pelo profissional específico para o seu quadro, ele acabou sendo liberado no dia 4 de abril, ainda sem um encaminhamento cirúrgico.

A trégua durou muito pouco. No dia 8 de abril, com as dores tornando-se novamente insuportáveis, o motorista precisou ser internado mais uma vez na mesma unidade de pronto atendimento. O roteiro se repetiu de forma exata: Baggio permaneceu no local até este domingo (12), mantido à base de morfina para conter as dores extremas, sem qualquer definição de quando finalmente seria atendido pelo urologista. Exausto e frustrado com a ausência de respostas, o paciente decidiu deixar a unidade médica.

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"Saí da UPA por não terem o dia que o tal especialista iria me atender. Só ficaram me enrolando todos esses dias. E tem mais... Ainda vem me aplicar que se saísse de lá perderia lugar na fila pra ser atendido. Que fila?? Que dia?? Com quem?? Perderia a fila se não são capazes de dizer nem pra onde seria conduzido?", desabafou o motorista.

Crise no atendimento especializado

O drama enfrentado por Aleandro não é um fato isolado e ilustra um cenário de descaso no atendimento que vem gerando reclamações diárias em Bento Gonçalves. Nos primeiros meses deste ano, os relatos de pacientes indicam que o acesso a médicos especialistas está cada vez mais escasso. Sem o devido encaminhamento, os pacientes acabam "retidos" nas unidades, sendo medicados com fortes analgésicos de forma paliativa até que desistam de esperar pelo atendimento e retornem para casa.

O gargalo se repete na rede de atenção básica. Moradores que buscam agendar consultas com especialistas por meio dos postos de saúde (UBSs) enfrentam semanas e até meses de espera. Além da demora, multiplicam-se os casos de pacientes que, ao finalmente conseguirem a tão aguardada data, têm a consulta cancelada na véspera pela secretaria e remarcada apenas para o mês seguinte, muitas vezes sem qualquer tipo de explicação técnica ou justificativa prévia.

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