Geral Debate
Atleta de ciclismo deve andar na ciclovia do Vale dos Vinhedos?
Debate iniciado após vídeo de um ciclista andando fora do espaço, apontou outros problemas enfrentados no local.
23/03/2026 12h25
Por: Redação Fonte: Jonathan Zanotto/Especial NB

Um vídeo recente de um ciclista transitando em alta velocidade pela pista de rolamento da ERS-444, no Vale dos Vinhedos, fora da via exclusiva, trouxe à tona um debate complexo em Bento Gonçalves. O episódio expõe um descompasso crescente entre a infraestrutura cicloviária projetada para o turismo e as necessidades reais dos atletas de alto rendimento. Enquanto a ciclofaixa representa um espaço seguro para passeios em família e fomento ao cicloturismo local, para o esportista profissional, ela pode se transformar em um gargalo técnico e um risco à segurança.

O limite da lei e a barreira dos 25 km/h

A polêmica esbarra em questões técnicas e legais. O engenheiro civil e ciclista Jonas Gabriel Adam explica que o projeto de muitas ciclovias brasileiras acaba ignorando a física da modalidade esportiva. "A velocidade máxima permitida por lei em uma ciclovia é de 25 km/h. Qualquer ciclista que treina, mesmo no plano, anda acima disso", pontua.

Jonas destaca ainda que barreiras físicas, como meios-fios contínuos ou "tartarugas", podem ser fatais para quem pedala em alta performance. "Se dois ciclistas se encontram e você precisa desviar rapidamente, você bate nesse meio-fio e cai direto na frente de um carro. Na pista de rolamento, temos área de escape", argumenta o engenheiro.

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Do ponto de vista legal, o uso da ciclovia tem nuances. Luciana Soccol, Agente Municipal de Trânsito, baseia-se no Código de Trânsito Brasileiro (CTB). "O Artigo 58 do CTB determina que as bicicletas devem circular preferencialmente em ciclovias ou ciclofaixas, ou seja, o texto não impõe uma obrigatoriedade absoluta", esclarece. Na ausência de condições seguras na via exclusiva, a bicicleta, por ser um veículo, tem o direito de ocupar o bordo da pista no mesmo sentido dos carros.

Performance vs. Lazer: a visão de quem vive do esporte

Para o ciclista de elite Orlando Baú, atleta da equipe ABC Concresul que chega a rodar 20 mil quilômetros por ano, a ciclovia do Vale dos Vinhedos não oferece condições estruturais para treinos de ponta. Ele ilustra a diferença prática entre os trajetos de subida e descida na região.

"Eu uso a ciclovia para subir, pois para descer não tem condições. Ela é muito suja, perigosa, sinuosa e estreita. É muito mais seguro para nós andar na pista, porque a gente consegue andar na mesma velocidade dos carros na descida, ou às vezes até mais", revela o atleta. Ele também critica a falta de planejamento nas áreas de transição da ciclovia.

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O engenheiro, ciclista e morador do Vale dos Vinhedos, Adriano de Bacco, concorda e alerta que a infraestrutura atual gerou efeitos colaterais para o trânsito em geral, como o estreitamento da pista dos carros e um traçado em ziguezague. Ele sugere a criação de uma comissão multissetorial para discutir o regramento e encontrar um ponto de equilíbrio. "Os tratores dos moradores não têm onde circular, os pedestres não têm onde caminhar. Faltou um planejamento e conversar com as entidades, moradores para que todos os usuários fossem beneficiados. Quem anda de carro, não tem área de escape e, se olhar para o lado, vai bater naquele corrimão de pedra que foi construído para separar a ciclovia da rodovia",d estacou De Bacco.

Bom senso e planejamento

O guia de cicloturismo Luciano Pacheco pondera as responsabilidades de ambas as partes no vídeo que viralizou. Embora aponte a falta de bom senso do ciclista em determinados trechos, ele ressalta a infração do motorista. "O motorista não pode estar filmando. Naquele trecho, a velocidade é de 40 km/h; para ultrapassar ou chegar no ciclista, ele estaria superando a velocidade da via", observa.

Pacheco, que participou da elaboração do Plano Cicloviário de Caxias do Sul, enfatiza que existem diferentes perfis de ciclistas: o de transporte urbano, o de lazer/turismo e o esportivo. "A ciclovia vai trazer segurança para todos, mas é preciso bom senso. O seu treino de performance vai te atrapalhar se você usar 4 km de ciclovia?", questiona, lembrando que o asfalto é de todos, mas o respeito à regra básica do CTB — veículos maiores protegem os menores e mantêm 1,5m de distância — é o que garante a vida no trânsito.