Um vídeo recente de um ciclista transitando em alta velocidade pela pista de rolamento da ERS-444, no Vale dos Vinhedos, fora da via exclusiva, trouxe à tona um debate complexo em Bento Gonçalves. O episódio expõe um descompasso crescente entre a infraestrutura cicloviária projetada para o turismo e as necessidades reais dos atletas de alto rendimento. Enquanto a ciclofaixa representa um espaço seguro para passeios em família e fomento ao cicloturismo local, para o esportista profissional, ela pode se transformar em um gargalo técnico e um risco à segurança.
A polêmica esbarra em questões técnicas e legais. O engenheiro civil e ciclista Jonas Gabriel Adam explica que o projeto de muitas ciclovias brasileiras acaba ignorando a física da modalidade esportiva. "A velocidade máxima permitida por lei em uma ciclovia é de 25 km/h. Qualquer ciclista que treina, mesmo no plano, anda acima disso", pontua.
Jonas destaca ainda que barreiras físicas, como meios-fios contínuos ou "tartarugas", podem ser fatais para quem pedala em alta performance. "Se dois ciclistas se encontram e você precisa desviar rapidamente, você bate nesse meio-fio e cai direto na frente de um carro. Na pista de rolamento, temos área de escape", argumenta o engenheiro.
Do ponto de vista legal, o uso da ciclovia tem nuances. Luciana Soccol, Agente Municipal de Trânsito, baseia-se no Código de Trânsito Brasileiro (CTB). "O Artigo 58 do CTB determina que as bicicletas devem circular preferencialmente em ciclovias ou ciclofaixas, ou seja, o texto não impõe uma obrigatoriedade absoluta", esclarece. Na ausência de condições seguras na via exclusiva, a bicicleta, por ser um veículo, tem o direito de ocupar o bordo da pista no mesmo sentido dos carros.
Para o ciclista de elite Orlando Baú, atleta da equipe ABC Concresul que chega a rodar 20 mil quilômetros por ano, a ciclovia do Vale dos Vinhedos não oferece condições estruturais para treinos de ponta. Ele ilustra a diferença prática entre os trajetos de subida e descida na região.
"Eu uso a ciclovia para subir, pois para descer não tem condições. Ela é muito suja, perigosa, sinuosa e estreita. É muito mais seguro para nós andar na pista, porque a gente consegue andar na mesma velocidade dos carros na descida, ou às vezes até mais", revela o atleta. Ele também critica a falta de planejamento nas áreas de transição da ciclovia.
O engenheiro, ciclista e morador do Vale dos Vinhedos, Adriano de Bacco, concorda e alerta que a infraestrutura atual gerou efeitos colaterais para o trânsito em geral, como o estreitamento da pista dos carros e um traçado em ziguezague. Ele sugere a criação de uma comissão multissetorial para discutir o regramento e encontrar um ponto de equilíbrio. "Os tratores dos moradores não têm onde circular, os pedestres não têm onde caminhar. Faltou um planejamento e conversar com as entidades, moradores para que todos os usuários fossem beneficiados. Quem anda de carro, não tem área de escape e, se olhar para o lado, vai bater naquele corrimão de pedra que foi construído para separar a ciclovia da rodovia",d estacou De Bacco.
O guia de cicloturismo Luciano Pacheco pondera as responsabilidades de ambas as partes no vídeo que viralizou. Embora aponte a falta de bom senso do ciclista em determinados trechos, ele ressalta a infração do motorista. "O motorista não pode estar filmando. Naquele trecho, a velocidade é de 40 km/h; para ultrapassar ou chegar no ciclista, ele estaria superando a velocidade da via", observa.
Pacheco, que participou da elaboração do Plano Cicloviário de Caxias do Sul, enfatiza que existem diferentes perfis de ciclistas: o de transporte urbano, o de lazer/turismo e o esportivo. "A ciclovia vai trazer segurança para todos, mas é preciso bom senso. O seu treino de performance vai te atrapalhar se você usar 4 km de ciclovia?", questiona, lembrando que o asfalto é de todos, mas o respeito à regra básica do CTB — veículos maiores protegem os menores e mantêm 1,5m de distância — é o que garante a vida no trânsito.