Educação Falta de gestão?
O drama das vagas, falta de monitores e o apagão na educação em Bento
Enquanto a prefeitura foca o marketing de uma cidade “humana e justa”, pais perdem o emprego por falta de profissionais e vagas em creches e enfrentam cortes no transporte escolar.
19/02/2026 17h06
Por: Redação Fonte: Jonathan Zanotto/Especial NB
Pais estão cansados de enrolação e falta de solução - Foto: Meramente ilustrativa/IA

O início do ano letivo em Bento Gonçalves expõe duas realidades completamente distintas. No papel, nas redes sociais e nas propagandas oficiais do Executivo, o cenário vendido é de uma "gestão de excelência". Para 2026, a Prefeitura tem alardeado "importantes avanços", anunciando a entrada em funcionamento de duas novas escolas de Educação Infantil (etapa creche) nos bairros Humaitá e São João. A promessa oficial também inclui a abertura de mais uma escola em turno integral (do 3º ao 9º ano) no primeiro quadrimestre. Em comunicados, a Secretaria de Educação reforça o discurso de que segue "investindo, ampliando e qualificando" o setor para construir uma cidade "cada vez mais desenvolvida, humana e justa".

Contudo, fora dessa vitrine institucional — e das visitas constantes à Escola Alfredo Aveline, possivelmente a única operando com normalidade plena —, a cidade "humana e justa" desmorona. O que se vê desde o final do ano passado é uma romaria de pais exaustos, correndo de um lado para o outro em busca do direito básico à educação para seus filhos. Em vez do acolhimento prometido, as famílias encontram salas sem monitores, ausência de auxiliares, falta de professores e um sistema de zoneamento caótico.

O pesadelo real: Berçários sem funcionários

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O contraste entre o marketing e a realidade atinge seu ápice em casos como o da Escola Espaço dos Sonhos. Nesta semana, início da recepção das crianças, uma mãe foi obrigada a voltar para casa com seu bebê de colo nos braços. A justificativa dada pela direção da escola? Não há funcionários suficientes para atuar no berçário, e o mais alarmante: não há qualquer previsão para que o problema seja solucionado.

É a política do "tem, mas acabou". Existe a estrutura física sendo divulgada, mas falta o monitor dentro da sala de aula. Sem ter com quem deixar os filhos, pais e mães de família se veem sob o risco iminente de perderem seus empregos, sabotados pela própria estrutura que deveria ampará-los.

O "milagre" na Central de Vagas

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A saga da desinformação continua na Central de Vagas do município. Diariamente, dezenas de pais formam filas em busca de uma solução, apenas para serem repetidamente informados pelos atendentes de que "não há vagas no zoneamento solicitado". A resposta padrão soa como um cumprimento de ordens superiores para conter a demanda.

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Porém, quando a reportagem do NB Notícias esteve no local para apurar as denúncias, um fenômeno curioso aconteceu: o milagre da imprensa. Pelo menos quatro mães que haviam conversado com a nossa equipe e recebido negativas reiteradas do sistema conseguiram, em questão de minutos, as vagas nas exatas escolas que haviam solicitado. A rapidez com que o sistema subitamente encontrou espaço levanta o questionamento: a falta de vagas é estrutural ou uma barreira artificial?

Burocracia como ferramenta de exclusão

Quando a falta de profissionais não é o problema, a invenção de regras entra em cena. No bairro Vila Nova II, uma mãe aguarda desesperada por uma vaga para o filho de 5 anos na Escola Maria Benini. A denúncia da comunidade aponta que crianças de outros bairros estão ocupando as vagas locais, forçando os moradores do entorno a cruzarem a cidade para estudar.

Em outro caso emblemático, no Loteamento Bertolini, uma mãe teve a matrícula do filho negada sob a justificativa de que o comprovante de residência estava em nome do fiador do aluguel. A Secretaria Municipal de Educação (SMED) passou a exigir documentos que famílias em situação de aluguel informal não possuem no próprio nome, citando legislações inexistentes. A Defensoria Pública já desmentiu a validade dessa exigência, evidenciando que o poder público cria "limbos" burocráticos para se desvencilhar de sua obrigação.

Cortes no transporte: Vans vazias e crianças a pé

Prefeitura de Bento retirou o transporte escolar em várias bairros da cidade sem justificativa

 

Como se não bastasse a via-crúcis por uma matrícula, a prefeitura ainda implementou cortes severos no transporte escolar. No bairro São Roque, o reflexo dessa economia é punitivo: dezenas de mães estão sendo obrigadas a caminhar várias quadras com crianças pequenas para chegarem às escolas. Durante o trajeto a pé, essas mesmas famílias são obrigadas a assistir às vans escolares passarem completamente vazias pelas ruas.

Dois pesos e a hipocrisia institucional

O atual cenário educacional de Bento Gonçalves escancara uma inversão de prioridades. O mesmo Executivo que se orgulha de aplicar um pente-fino implacável nos beneficiários do Bolsa Família, falha em fornecer a infraestrutura básica para que essas pessoas possam trabalhar e sair da dependência de auxílios.

O rigor da lei também é seletivo. Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), se um pai não leva o filho à escola, ele é advertido e denunciado ao Conselho Tutelar. Porém, quando o Estado falha em oferecer a vaga ou o monitor, a família é mandada para uma fila judicial interminável na Defensoria Pública.

Sem a creche funcionando na prática, sem monitores nas salas e sem transporte, a "gestão de excelência" parece se sustentar apenas em promessas futuras e comunicados oficias. Na vida real, a conta da incompetência continua sobrando para o cidadão.