Todo início de ano letivo em Bento Gonçalves parece uma reprise de um filme de drama que a população já conhece o final: o desespero por uma vaga na Educação Infantil. Mas, desta vez, o roteiro da ineficiência ganhou novos capítulos que beiram o desrespeito com o cidadão que paga seus impostos e busca o mínimo de retorno do poder público. A pergunta que não quer calar é: quando teremos, de fato, uma gestão eficiente na distribuição dessas vagas?
O sistema atual é um labirinto de contradições e silêncio. Enquanto famílias que preenchem rigorosamente todos os critérios de vulnerabilidade e necessidade ficam de fora, assistimos a cenas que desafiam a lógica na porta das escolas. Em unidades destinadas a atender a tal "condição de vulnerabilidade", não é raro ver pais desembarcando seus filhos de carros novíssimos. Se o critério é socioeconômico, a peneira da Prefeitura está furada. Ou a fiscalização é inexistente, ou o conceito de "vulnerabilidade" em Bento foi atualizado e ninguém avisou quem realmente precisa.
E as soluções paliativas geram mais dúvidas do que alívio. A Prefeitura alugou, por R$ 30 mil mensais, a estrutura de uma antiga escola particular que fechou as portas na divisa dos bairros Humaitá e Progresso, em frente à Escola Mestre. Ótimo que se abra espaço físico, mas onde está a transparência? Quais foram as famílias selecionadas para ocuparem aquelas vagas específicas? Qual foi o critério utilizado? A sociedade não sabe, e a falta de clareza abre margem para o velho "disse me disse" que corrói a confiança nas instituições.
O drama se aprofunda na burocracia burra. O relato de uma mãe resume a falência do sistema: "Só ganharei vaga se eu estiver trabalhando, aí vou procurar emprego como? Fazer entrevista como? Com a criança junto?". O poder público cria um paradoxo cruel: exige o emprego para dar a vaga, mas nega a vaga que permitiria a busca pelo emprego. É uma lógica que empurra as mulheres para a informalidade ou para o desespero.
E quando a vaga finalmente sai, a garantia de atendimento é uma ilusão. Mães relatam receber mensagens no celular avisando para não levarem os filhos ao berçário. O motivo? Falta de funcionários. E não falta gente por ausência de mão de obra na cidade, falta gente porque ninguém quer se sujeitar a trabalhar como monitor recebendo o valor miserável pago pela Prefeitura de Bento Gonçalves — reconhecidamente o pior salário entre as principais cidades da Serra Gaúcha.
É a desvalorização do profissional estourando no colo da família.
Às vezes, a impressão que fica é que o poder público opera na lógica do "quanto pior, melhor". Parece haver uma aposta no cansaço, na resignação de que "é assim mesmo". A Prefeitura empurra o problema com a barriga, remenda aqui e ali, aluga um prédio às pressas, mas não apresenta uma gestão moderna, digital e inteligente do problema.
Bento Gonçalves, uma cidade que se orgulha de tantos índices econômicos, não pode aceitar que a educação de suas crianças seja gerida no improviso. As famílias não querem favores. Querem critérios justos, transparência e, acima de tudo, respeito.