Há momentos na política em que a retórica, na tentativa de ser um escudo, acaba se transformando em uma confissão. Ao subir à tribuna da Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves, o presidente da Casa, vereador Anderson Zanella (PP), cometeu um desses atos falhos freudianos que entrariam para os anais do "sincericídio" político. Ao afirmar que só "fala mal" da Casa do Povo quem não recebe dinheiro da Mesa Diretora (o presidente repete o mesmo discurso desde janeiro de 2025), Zanella não apenas atacou este veículo (de novo); ele inadvertidamente insultou toda a imprensa local e regional que recebe verbas públicas.
A lógica do nobre vereador é perversa, mas reveladora. Se a crítica é fruto da ausência de pagamento, devemos deduzir então que o silêncio é comprado? Quer dizer que os cerca de R$ 400 mil anuais de publicidade do Legislativo servem como uma mordaça de luxo para que não se toque nas feridas abertas do legislativo municipal? Se levada ao pé da letra, a lógica é simples e perigosa: quem recebe, elogia; quem não recebe, critica por despeito. É um raciocínio que fere o princípio básico do jornalismo — e da democracia.
É direito discricionário da Mesa Diretora escolher onde investir sua verba publicitária. O que não é direito, e sim dever, é a transparência. E é justamente isso que parece incomodar o presidente. A obsessão de Zanella em atacar o NB Notícias — que, reitere-se, mantém sua independência editorial ao não depender do beija-mão financeiro do Legislativo — parece uma cortina de fumaça para esconder o elefante branco que cresce no horizonte: a nova sede da Câmara, uma obra faraônica cujos custos já roçam a estratosfera dos R$ 30 milhões.
Em vez de repetir o mantra do "falam porque não pagamos", o presidente deveria aproveitar esta segunda-feira, 2 de fevereiro, para prestar contas reais à população. A retórica vitimista não explica a matemática dos contratos.
Só para exemplificar, senhor Presidente, a pergunta que esse meio de comunicação faz — e que os veículos "amigos" talvez evitem — é técnica e direta: Por qual motivo Vossa Excelência, em seu primeiro ato em janeiro de 2025, autorizou aditivos na ordem de R$ 750 mil à empresa responsável pela obra do Palácio, contrariando argumentos jurídicos que desaconselhavam tal pagamento? Onde está a justificativa legal e robusta para tal benevolência com o dinheiro do contribuinte?
Curiosamente, ao buscarmos essas respostas no Portal da Transparência, encontramos o opaco. Documentos cruciais, que justificariam tais repasses, brilham pela ausência. Se o senhor se autointitula o guardião do dinheiro público, o "respeitador" do erário, faça o básico: libere os documentos. A transparência não pode ser seletiva.
Talvez o medo de que essas perguntas surgissem sem o devido preparo, tenha motivado o súbito cancelamento da coletiva de imprensa que o senhor disse na tribuna que realizaria nesta segunda-feira, 2. Desistir de encarar os jornalistas é mais fácil do que explicar o inexplicável frente a frente com o único veículo que, segundo sua própria lógica, tem a liberdade de questionar porque não tem o rabo preso com o cofre da Câmara. O silêncio institucional, nesse contexto, pesa mais do que qualquer manchete. Porque, quando o poder público prefere discutir a motivação de quem pergunta em vez de responder às perguntas, o foco deixa de ser a imprensa e passa a ser a própria gestão.
Por fim, o presidente relata, em tom melodramático, que chora ao chegar em casa. Comove a sensibilidade do vereador. Resta saber se as lágrimas são de arrependimento ou de emoção ao visualizar como ficará suntuosa sua nova sala presidencial, que será decorada com móveis luxuosos pagos pelo suor do trabalhador bento-gonçalvense. Detalhe: só tivemos acesso às imagens do projeto da nova sala, mas não ao custo que ela deve ter.
Chorar em casa é fácil, vereador. Difícil é vir a público, abrir a caixa-preta da obra e explicar por que o dinheiro do povo está escoando pelo ralo da opacidade. O resto é apenas retórica de quem não suporta o contraditório e não tem poder para contê-lo.