O Roteiro Caminhos de Pedra, no distrito de São Pedro, interior de Bento Gonçalves (RS), encerrou 2025 com um marco simbólico para a Serra Gaúcha: a consolidação da retomada turística após o impacto das enchentes de 2024. O circuito registrou 482.120 visitantes, alta de 74,7% em relação ao ano anterior, quando 276 mil pessoas passaram pelo local, segundo a Associação Caminhos de Pedra.
O salto numérico vai além de estatística. Representa a recuperação de um dos destinos mais emblemáticos do turismo de identidade cultural no Sul do país — um corredor de construções históricas em pedra basáltica erguidas por imigrantes italianos no final do século 19, hoje convertidas em vinícolas familiares, cafés, agroindústrias e espaços gastronômicos.
O roteiro deixou de ser apenas um passeio de passagem para se consolidar como experiência de permanência. A secretária executiva da Associação Caminhos de Pedra, Arlete de Cesaro, diz que a diversidade de atrativos tem feito o visitante prolongar a estadia.
“A visibilidade do Caminhos de Pedra vem crescendo porque temos opções para toda a família. O turista consegue passar o dia inteiro aqui e ainda opta por se hospedar na região para viver novas experiências”, afirma.
Esse movimento reflete uma tendência do turismo pós-crise climática: destinos que oferecem vivência cultural autêntica e contato com tradições locais têm se destacado frente ao turismo de consumo rápido.
A Cantina Strapazzon, vinícola histórica comandada pela quinta geração da família, exemplifica essa renovação. Em 2025, ampliou o número de experiências oferecidas aos visitantes e reformulou sua loja.
“Antes tínhamos um único passeio. Diversificamos o atendimento e isso agregou muito valor. O visitante vem também para conhecer as novidades”, diz a administradora Josiele Strapazzon.
No outro extremo do espectro, o contemporâneo Benevento Café combina cafeteria, chocolates, vinhos e área externa de convivência. O proprietário Eduardo Benvenutti observa mudança no perfil do público.
“Cresceu o tempo de permanência e o interesse por experiências ligadas à gastronomia e ao ambiente, não apenas ao consumo imediato.”
As enchentes de 2024 atingiram o turismo da Serra Gaúcha de forma direta e indireta, comprometendo acessos, infraestrutura e a confiança do viajante. O desempenho de 2025 indica que a região conseguiu recuperar fluxo e imagem.
“O crescimento mostra resiliência. Foi preciso reconstruir estradas, replanejar operações e manter o diálogo entre empreendimentos”, avalia Arlete.
Hoje, mais de 30 estabelecimentos integram o roteiro, operando sob lógica de cooperação. “Não somos concorrentes, somos aliados”, resume.
O setor projeta um 2026 ainda mais promissor. O calendário com feriados prolongados é visto como impulso para viagens curtas, segmento no qual o Caminhos de Pedra se encaixa.
“Precisamos de um ano forte de turismo depois das enchentes e da pandemia”, diz Josiele. Benvenutti destaca que a meta é distribuir melhor o fluxo ao longo do ano, evitando picos concentrados.
Se as projeções se confirmarem, o Caminhos de Pedra consolida-se não apenas como atração turística, mas como modelo de desenvolvimento local baseado em memória, gastronomia e associativismo — um roteiro onde o passado de pedra sustenta a economia do presente.