Há gestos que não mudam a vida concreta da cidade — mas mudam o tabuleiro. Dois dias como prefeito em exercício podem parecer um detalhe administrativo. Na política, são quase um rito. Em Bento Gonçalves, o episódio que se desenha nesta semana tem cheiro de pré-campanha, formato de teste e função de recado: começou o vestibular de preparação para prefeito do presidente da Câmara, Anderson Zanella.
O roteiro é tão perfeito quanto conveniente. Diogo Siqueira e Amarildo Lucatelli, prefeito e vice, entram de férias com datas concomitantes, e a cadeira do Executivo fica, por dois dias, nas mãos do chefe do Legislativo. O simbolismo vale mais do que o tempo. E Bento, que já se acostumou a conviver com movimentos calculados, deve ler o gesto como o que ele é: o PP ensaiando, diante das câmeras, seu próximo capítulo sucessório.
Abaixo, em 10 tópicos — como pede a era da atenção curta - faço um exercício de "futurologia" sobre o cenário do que está acontecendo e vai acontecer em Bento Gonçalves.
Ser prefeito em exercício por 48 horas não entrega grandes reformas, nem altera o orçamento.
Mas entrega o que a política mais gosta: imagem, liturgia e autoridade.
O presidente da Câmara ganha:
acesso ao gabinete,
caneta (ainda que simbólica),
agenda pública,
foto oficial,
e, principalmente, o tratamento de “prefeito” — nem que seja provisório.
Em tempos de comunicação, isso vale ouro. Porque, no eleitorado, a ideia de poder precede o poder real. E a política municipal vive disso: a impressão.
Vamos ser sinceros: férias simultâneas de prefeito e vice não são impossíveis — mas são estatisticamente improváveis quando coincidem com o momento em que o presidente da Câmara está pronto para ocupar o posto.
A coincidência produz um efeito:
normaliza o nome de Zanella no Executivo;
sugere “preparo”;
e dá ao PP uma narrativa limpa:
“ele já foi prefeito — viu como é?”
E a frase “já foi prefeito” — mesmo por dois dias — costuma render mais do que qualquer discurso no microfone.
Política é desejo com disciplina. E desejo, quando é bem administrado, vira plano.
O que está em jogo aqui é o seguinte: Zanella experimenta a cadeira, treina o corpo para o cargo e acostuma o público com a possibilidade.
É o “prefeito beta”.
E é aqui que mora o detalhe mais previsível (quase inevitável):
não seria surpresa se o prefeito em exercício anunciasse:
alguma pequena obra,
autorização de serviço,
ação simbólica,
melhoria pontual,
ou entrega rápida,
apenas para produzir o registro essencial: a foto da caneta.
Em política, às vezes um asfalto de 30 metros rende mais do que uma obra de 30 milhões — se o enquadramento for bom.
Hoje, nos bastidores, Anderson Zanella é o grande nome do PP na escala sucessória municipal.
E esse é o tipo de informação que importa porque define comportamento:
aliados passam a gravitar em torno dele;
secretarias e servidores se reposicionam;
empresários começam a “medir o vento”;
e até adversários mudam a mira.
Bento vive um processo que a política tradicional conhece bem: a formação do favorito. E o favorito, quando vira consenso interno, vira quase inevitável — salvo terremoto.
Aqui está um ponto que quase ninguém vai dizer em voz alta — mas que o PP entende muito bem.
A ascensão de Zanella ao posto de prefeito em exercício não é apenas um gesto institucional. Ela funciona como manobra inteligente de comunicação política, porque introduz um fato novo em um momento sensível: o risco de desgaste do presidente da Câmara com os números que orbitam a construção do novo Palácio Legislativo.
A obra caminha para se consolidar como um símbolo de alto custo — na casa dos R$ 30 milhões (ou mais, dependendo do fechamento de etapas e licitações).
Esse número, por si só, tem potencial de virar um rótulo eleitoral:
“o presidente da Câmara do prédio milionário”.
Ao levá-lo, ainda que temporariamente, para o Executivo, o partido produz uma cortina de fumaça eficiente:
a pauta muda;
o enquadramento muda;
o personagem muda de função;
e a narrativa deixa de ser “obra cara” para ser “prefeito em exercício”.
É o velho truque político: trocar o campo de batalha antes que o adversário aprenda a mirar.
E há um subtexto ainda mais pragmático: concluir o Palácio Legislativo a toque de caixa até maio de 2026 ajuda o PP a “encerrar o assunto” cedo, impedindo que a obra se transforme em âncora negativa no ciclo decisivo de 2027/2028.
Trata-se, portanto, não apenas de engenharia civil — mas de engenharia eleitoral.
Ao longo dos anos, ele se consolidou como:
um excelente soldado do PP
leal, resistente, funcional
e, sobretudo, paciente
A política valoriza isso. Porque partido, no fim, é hierarquia.
Ele passou:
por dois mandatos como suplente,
com espaço, estrutura e carinho do núcleo duro,
até chegar onde queria:
a presidência da Câmara (2024).
Quando sentou na cadeira principal do Legislativo, não escondeu o olhar para a Casa Amarela. Não é pecado político ambicionar. Pecado é ambicionar sem organização. E nisso o PP não falha.
O trajeto de Zanella chama atenção porque ele ultrapassou nomes que eram tidos como certos na fila do poder:
o vereador Eduardo Viríssimo
e o vice-prefeito Amarildo Lucatelli
Isso não ocorre por acaso.
Isso ocorre quando:
o partido define prioridade,
os apoios se realinham,
e o projeto vira institucional.
Em resumo: Zanella não está apenas crescendo — está sendo empurrado por uma estrutura.
E estrutura é o que ganha eleição municipal.
Aqui há um ponto de leitura política mais profunda — e perigosa:
o PP já opera para fechar mais de 20 anos de comando da Capital do Vinho;
e o próximo ciclo ganha contorno ainda mais relevante porque o mandato seguinte seria, na sua lógica, de seis anos (2029 a 2034).
Ou seja: quem vencer 2028 não vence só uma eleição. Vence uma era.
E é por isso que o partido antecipa movimentos. O PP não joga o jogo do improviso. Joga o jogo do calendário.
A oposição em Bento está encurralada não apenas por força do PP, mas por um vício próprio:
repetição de nomes
repetição de discurso
repetição de estratégia
repetição de vaidade
E a repetição, em política, é um tipo de suicídio lento.
Se de um lado o PP construiu um organograma perfeito — e construiu —, do outro, a oposição segue parecendo um grupo que se reúne para discutir candidatura, não para construir projeto.
O que falta é simples e difícil:
Fato novo não é slogan. É:
liderança com densidade
articulação com método
coragem de romper com antigos donos do microfone
e a criação de um grupo capaz de sustentar uma candidatura sem depender de milagres
Este colunista pode até não simpatizar com a ideia. Mas seria desonesto negar a realidade:
Zanella é favorito;
está organizando com antecedência;
tem estrutura partidária;
e ocupa o posto certo para projetar o próximo salto.
Porém, duas coisas podem interromper esse roteiro que hoje parece pavimentado:
Se houver um fato grave com potencial de desgaste na atual gestão — daqueles que contaminam “a marca do governo” e respingam no candidato da continuidade —, a lógica do favoritismo desmorona rapidamente.
Na política municipal, escândalo é mais forte do que estrutura.
Aqui está o ponto que o PP não verbaliza, mas calcula.
Se Guilherme Pasin não se reeleger deputado estadual nas eleições deste ano, ele deixa de ser apenas uma liderança partidária regional e se transforma, automaticamente, em:
plano A
candidato natural
e nome de consenso interno do PP
Ou seja: neste cenário, o partido não precisaria “inventar sucessor” nem testar popularidade — ele resgataria um capital político pronto, com recall, rede e narrativa de “volta ao Executivo”.
E aí Zanella, por melhor que seja sua construção, vira o que a política adora fazer com bons quadros: reserva estratégico.