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O “vestibular” de Anderson Zanella para a Prefeitura de Bento começou
Coluna destaca em 10 tópicos porque o presidente da Câmara é o grande nome que está sendo preparado para 2028.
22/01/2026 08h47 Atualizada há 3 horas
Por: Marcelo Dargelio
Anderson Zanella começa a ensaiar a pose que quer fazer em 1º de janeiro de 2029 - Foto: Reprodução gerada por Inteligência Artificial

Há gestos que não mudam a vida concreta da cidade — mas mudam o tabuleiro. Dois dias como prefeito em exercício podem parecer um detalhe administrativo. Na política, são quase um rito. Em Bento Gonçalves, o episódio que se desenha nesta semana tem cheiro de pré-campanha, formato de teste e função de recado: começou o vestibular de preparação para prefeito do presidente da Câmara, Anderson Zanella.

O roteiro é tão perfeito quanto conveniente. Diogo Siqueira e Amarildo Lucatelli, prefeito e vice, entram de férias com datas concomitantes, e a cadeira do Executivo fica, por dois dias, nas mãos do chefe do Legislativo. O simbolismo vale mais do que o tempo. E Bento, que já se acostumou a conviver com movimentos calculados, deve ler o gesto como o que ele é: o PP ensaiando, diante das câmeras, seu próximo capítulo sucessório.

Abaixo, em 10 tópicos — como pede a era da atenção curta - faço um exercício de "futurologia" sobre o cenário do que está acontecendo e vai acontecer em Bento Gonçalves.

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1) Dois dias não são nada. Politicamente, são tudo.

Em tempos de comunicação, isso vale ouro. Porque, no eleitorado, a ideia de poder precede o poder real. E a política municipal vive disso: a impressão.

2) Coincidência demais costuma ter nome: estratégia

Parceria e fidelidade política garantem a força e sustentabilidade do PP ao longo do tempo

 

Vamos ser sinceros: férias simultâneas de prefeito e vice não são impossíveis — mas são estatisticamente improváveis quando coincidem com o momento em que o presidente da Câmara está pronto para ocupar o posto.

A coincidência produz um efeito:

E a frase “já foi prefeito” — mesmo por dois dias — costuma render mais do que qualquer discurso no microfone.

3) O “gostinho” do cargo é parte do treinamento

Política é desejo com disciplina. E desejo, quando é bem administrado, vira plano.

O que está em jogo aqui é o seguinte: Zanella experimenta a cadeira, treina o corpo para o cargo e acostuma o público com a possibilidade.

É o “prefeito beta”.

E é aqui que mora o detalhe mais previsível (quase inevitável):

Em política, às vezes um asfalto de 30 metros rende mais do que uma obra de 30 milhões — se o enquadramento for bom.

4) O PP fecha a fila: a sucessão já tem nome e sobrenome

Hoje, nos bastidores, Anderson Zanella é o grande nome do PP na escala sucessória municipal.

E esse é o tipo de informação que importa porque define comportamento:

Bento vive um processo que a política tradicional conhece bem: a formação do favorito. E o favorito, quando vira consenso interno, vira quase inevitável — salvo terremoto.

5) O cálculo de imagem: ser “prefeito por 2 dias” também serve para desviar o foco da obra da Câmara

Aqui está um ponto que quase ninguém vai dizer em voz alta — mas que o PP entende muito bem.

A ascensão de Zanella ao posto de prefeito em exercício não é apenas um gesto institucional. Ela funciona como manobra inteligente de comunicação política, porque introduz um fato novo em um momento sensível: o risco de desgaste do presidente da Câmara com os números que orbitam a construção do novo Palácio Legislativo.

Ao levá-lo, ainda que temporariamente, para o Executivo, o partido produz uma cortina de fumaça eficiente:

É o velho truque político: trocar o campo de batalha antes que o adversário aprenda a mirar.

E há um subtexto ainda mais pragmático: concluir o Palácio Legislativo a toque de caixa até maio de 2026 ajuda o PP a “encerrar o assunto” cedo, impedindo que a obra se transforme em âncora negativa no ciclo decisivo de 2027/2028.

Trata-se, portanto, não apenas de engenharia civil — mas de engenharia eleitoral.

6) A arte de Zanella: ser soldado para depois virar comandante

Anderson Zanella superou colegas políticos e saltou várias casas na linha sucessória do PP de Guilherme Pasin

 

A ascensão de Zanella tem uma característica rara e, por isso mesmo, eficiente: não parece improvisada.

Ao longo dos anos, ele se consolidou como:

A política valoriza isso. Porque partido, no fim, é hierarquia.

Ele passou:

Quando sentou na cadeira principal do Legislativo, não escondeu o olhar para a Casa Amarela. Não é pecado político ambicionar. Pecado é ambicionar sem organização. E nisso o PP não falha.

7) Zanella ultrapassou nomes “naturais”. E isso diz muito.

O trajeto de Zanella chama atenção porque ele ultrapassou nomes que eram tidos como certos na fila do poder:

Isso não ocorre por acaso.

Isso ocorre quando:

Em resumo: Zanella não está apenas crescendo — está sendo empurrado por uma estrutura.

E estrutura é o que ganha eleição municipal.

8) A meta do PP: 20 anos de comando e um detalhe explosivo — o mandato de 6 anos

Aqui há um ponto de leitura política mais profunda — e perigosa:

Ou seja: quem vencer 2028 não vence só uma eleição. Vence uma era.

E é por isso que o partido antecipa movimentos. O PP não joga o jogo do improviso. Joga o jogo do calendário.

9) O que resta para a oposição? (spoiler: quase nada, se continuar igual)

A oposição em Bento está encurralada não apenas por força do PP, mas por um vício próprio:

E a repetição, em política, é um tipo de suicídio lento.

Se de um lado o PP construiu um organograma perfeito — e construiu —, do outro, a oposição segue parecendo um grupo que se reúne para discutir candidatura, não para construir projeto.

O que falta é simples e difícil:

Falta um “FATO NOVO”

Fato novo não é slogan. É:

10) A verdade incômoda: Zanella tem caminho aberto — mas com duas bombas no trajeto

Este colunista pode até não simpatizar com a ideia. Mas seria desonesto negar a realidade:

Porém, duas coisas podem interromper esse roteiro que hoje parece pavimentado:

1) Um escândalo grande na administração

Se houver um fato grave com potencial de desgaste na atual gestão — daqueles que contaminam “a marca do governo” e respingam no candidato da continuidade —, a lógica do favoritismo desmorona rapidamente.
Na política municipal, escândalo é mais forte do que estrutura.

2) A não reeleição de Guilherme Pasin em 2026

Aqui está o ponto que o PP não verbaliza, mas calcula.

Se Guilherme Pasin não se reeleger deputado estadual nas eleições deste ano, ele deixa de ser apenas uma liderança partidária regional e se transforma, automaticamente, em:

Ou seja: neste cenário, o partido não precisaria “inventar sucessor” nem testar popularidade — ele resgataria um capital político pronto, com recall, rede e narrativa de “volta ao Executivo”.

E aí Zanella, por melhor que seja sua construção, vira o que a política adora fazer com bons quadros: reserva estratégico.