Um dos símbolos mais tradicionais das cidades brasileiras está com os dias contados. Os telefones de uso público (TUPs) — popularmente conhecidos como orelhões — serão retirados de forma definitiva das ruas do país. Segundo informações divulgadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), os últimos 30 mil aparelhos ainda existentes no Brasil têm prazo de “aposentadoria” até 31 de dezembro de 2028, encerrando um ciclo que marcou gerações.
Os orelhões foram lançados em 1972 e se tornaram, por décadas, uma alternativa essencial de comunicação — especialmente antes da popularização dos celulares, quando fazer uma ligação fora de casa dependia diretamente desse serviço.
Mais do que um equipamento de telefonia, o orelhão virou parte do cenário urbano brasileiro. O design icônico, em formato oval, foi assinado pela arquiteta Chu Ming Silveira, chinesa radicada no Brasil, e se tornou referência no mobiliário urbano.
Ao longo do tempo, os orelhões foram não apenas ferramenta de comunicação, mas também ponto de referência em ruas e praças, servindo como local de encontro e orientação em diferentes cidades.
O auge do serviço ocorreu quando o Brasil chegou a contar com mais de 1,5 milhão de terminais espalhados em áreas urbanas e rurais. A rede era mantida pelas concessionárias de telefonia fixa como contrapartida obrigatória dos contratos de concessão.
Com o avanço da tecnologia e a expansão da telefonia móvel e da internet, o uso dos TUPs despencou — e, com isso, a estrutura passou a perder sentido econômico e operacional dentro do modelo antigo de concessões.
Os contratos de concessão do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC) que incluíam a obrigação de manter os orelhões foram firmados em 1998 e encerraram em dezembro de 2025. A partir disso, o serviço passou por adaptação para o regime de autorização, no modelo privado, o que prevê a extinção gradual dos telefones públicos dentro do novo plano de universalização do acesso à comunicação no país.
A Anatel explica que a mudança de modelo busca estimular investimentos em infraestrutura mais moderna, especialmente voltada à expansão da banda larga.
Mesmo com a retirada gradual, a Anatel informou que cerca de 9 mil orelhões devem permanecer ativos em localidades onde ainda não existe sinal mínimo de 4G, garantindo ao menos uma alternativa de comunicação. Esse compromisso valerá até o limite de 31 de dezembro de 2028.
As prestadoras também assumiram compromissos de investimento em infraestrutura, como:
implantação de fibra óptica em localidades sem cobertura;
instalação de antenas de telefonia celular com tecnologia mínima 4G;
expansão do serviço em municípios com baixa oferta;
conectividade em escolas públicas e construção de data centers.
Para muitos brasileiros, orelhão é sinônimo de memória: a fila para ligar, o cartão telefônico, as ligações rápidas para casa, a busca por um ponto de telefone público em emergências.
Agora, com a digitalização quase total da comunicação, o serviço se despede definitivamente do cotidiano do país — marcando o fim de uma era em que os orelhões tiveram papel fundamental na inclusão e no acesso à telefonia, principalmente para quem não tinha telefone residencial.