Internacional Cidadania italiana
Governo da Itália aprova nova mudança na cidadania italiana
A partir de agora consulados deixam de reconhecer pedidos por jus sanguinis.
16/01/2026 08h55
Por: Marcelo Dargelio

A busca pela cidadania italiana — especialmente forte no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina — pode entrar em uma nova fase de mais burocracia e centralização. O Senado da Itália aprovou nesta quarta-feira (14), por 76 votos a favor e 55 contrários, o Projeto de Lei 2369, que altera o funcionamento dos serviços consulares e muda normas voltadas aos italianos residentes no exterior.

A proposta, apresentada pelo governo da primeira-ministra Giorgia Meloni, já havia sido aprovada na Câmara dos Deputados em outubro de 2025 e agora aguarda apenas a sanção do presidente da República para entrar em vigor.

A principal mudança: os consulados deixam de ter a atribuição de reconhecer administrativamente a cidadania italiana por direito de sangue (jus sanguinis) — procedimento que, por décadas, foi a principal porta de entrada para descendentes no exterior.

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O que muda na prática?

Pelo novo texto, haverá uma transição e, a partir de 2029, o reconhecimento administrativo da cidadania será feito apenas por um departamento específico do Ministério das Relações Exteriores, centralizado em Roma.

Esse órgão:

Ou seja: o que hoje é analisado nos consulados locais (como Porto Alegre e Curitiba) passará a depender de um setor único na capital italiana.

Governo diz que é modernização, mas críticos apontam “restrição disfarçada”

O governo de Giorgia Meloni argumenta que a mudança busca padronizar procedimentos e gerar mais eficiência.

Mas entidades que representam italianos no exterior avaliam que essa centralização representa retrocesso e pode dificultar ainda mais a vida dos ítalo-descendentes — principalmente na América do Sul, onde há enorme volume de solicitações.

A presidente do Comites RS (Comitato degli Italiani all’Estero), a caxiense Cristina Mioranza, considera a medida parte de um movimento de retirada de direitos. “Até 2002 era feito assim, em Roma, e se descentralizou para dar agilidade, o que foi muito produtivo. Isto que está sendo feito agora é uma maneira de cercear”, afirmou.

Deputado critica: “vão apertar nosso pescoço até nos matar”

O deputado Fabio Porta, um dos representantes da América do Sul no Parlamento italiano, votou contra a medida e classificou o projeto como mal-feito e burocrático.

Segundo ele, não faz sentido tirar a competência dos consulados e centralizar tudo em um departamento reduzido, sem uso de sistemas digitais. “Vai se levar tudo para Roma, e um departamento de 80 pessoas vai fazer o trabalho que hoje é realizado no Brasil por cerca de 200 pessoas… atendendo o mundo todo”, criticou.

Procurado para comentar impactos no dia a dia, o Consulado-Geral da Itália no RS preferiu não se manifestar.

ENTENDA: Jus sanguinis (direito de sangue)

O jus sanguinis é o princípio pelo qual filhos, netos e descendentes de italianos podem solicitar a cidadania por vínculo familiar.

Ele sempre foi uma das bases legais mais fortes da cidadania italiana e explica por que milhões de brasileiros — principalmente no Sul — têm direito ao reconhecimento.

Contexto: medidas restritivas já vinham desde 2025

A aprovação do PL 2369 ocorre dentro de um cenário maior: em 2025, o Parlamento italiano aprovou medidas que passaram a limitar e endurecer o reconhecimento da cidadania por descendência.

Uma das mudanças anteriores restringiu o benefício e levantou debates sobre violação de um direito histórico ligado à própria Constituição da Itália — motivo pelo qual o tema virou alvo de contestação judicial.

Pode mudar? Corte Constitucional analisa regras em março

O assunto ainda pode sofrer reviravolta.

No dia 11 de março, a Corte Constitucional da Itália deverá analisar questionamentos encaminhados pelo Tribunal de Turim sobre a aplicação das normas de restrição impostas em 2025.

Juristas avaliam que existe chance real de a Corte invalidar ou limitar essas mudanças por possível inconstitucionalidade — o que poderia impactar tanto processos judiciais quanto pedidos administrativos.

O que isso significa para brasileiros?

O efeito pode ser direto para quem:

Especialistas temem que a centralização em Roma torne o procedimento:

mais lento
mais burocrático
mais distante do cidadão
com risco maior de acumular filas globais