Saúde Denúncia
Prefeitura de Bento demite pediatra e revolta familiares de pacientes
Médico Norberto Foster foi demitido a pedido do poder público, apesar do bom atendimento que realizava nas unidades de saúde.
15/01/2026 16h06
Por: Marcelo Dargelio Fonte: Jonathan Zanotto/Especial NB

A saída do pediatra Norberto Pisacco Forster da rede pública de saúde de Bento Gonçalves provocou indignação entre pacientes e familiares, especialmente pais de crianças que eram atendidas pelo profissional. A demissão, ocorrida em dezembro de 2025, mobilizou uma onda de manifestações e reacendeu o debate sobre falta de médicos, rotatividade e possíveis restrições internas relacionadas à solicitação de exames e prescrição de medicamentos nas unidades do SUS no município.

O caso ganhou repercussão após a circulação do documento oficial que formaliza o desligamento, emitido pela Secretaria Municipal de Saúde.

Documento confirma afastamento imediato e pedido de substituição

O ofício anexado pela reportagem é assinado pelo coordenador médico da Secretaria Municipal de Saúde, Tiago Arpini Valério, e a secretária-adjunta da SMS, Débora Bettú Grígolo, encaminhado à empresa responsável pelos profissionais terceirizados da pasta. No documento, a Secretaria comunica e solicita que o médico Norberto Pisacco Foster seja afastado “de todas as atividades prestadas” à SMS, tanto em plantões quanto Atenção Básica, “a partir da presente data”, e pede a substituição do profissional.

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O texto consta no Ofício SIGA nº SMS-OFI-2025/03656, datado de 17 de dezembro de 2025, direcionado à empresa MedSaúde LTDA, vinculada ao Contrato de Prestação de Serviços nº 285/2021.

Apesar do caráter definitivo do afastamento, o documento não apresenta justificativa detalhada, o que contribuiu para o aumento da insatisfação entre usuários do sistema público.

Pais se mobilizam e caso chega ao Ministério Público

Segundo relatos reunidos pela reportagem, o desligamento do pediatra foi visto como um “rompimento” com uma referência importante para diversas famílias, principalmente em acompanhamentos complexos e contínuos. A mobilização da comunidade resultou em um abaixo-assinado com cerca de 500 assinaturas, entregue ao Ministério Público, pedindo intervenção e apuração da saída do profissional e do cenário de atendimento pediátrico no município.

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O médico atuava em locais estratégicos, incluindo o Centro de Referência Materno Infantil e unidades como São Roque, Ouro Verde e Zatt, atendendo principalmente crianças e bebês com necessidades recorrentes — muitos deles em situação de risco e com histórico de internações.

Denúncia extraoficial: “médico que pede muitos exames é desligado”

Além da revolta popular, o episódio também alimentou críticas internas. Extraoficialmente, servidores da rede municipal afirmam que o desligamento pode estar relacionado ao volume de solicitações médicas feitas pelo pediatra. Um servidor ouvido pela reportagem, que pediu para não ser identificado, afirmou que médicos que solicitam muitos exames e medicamentos para investigação e acompanhamento clínico acabam contrariando a lógica da regulação. “Cada médico que pede muitos exames para examinar seus pacientes no mês seguinte é desligado pela prefeitura”, declarou o servidor.

Ainda conforme relatos, a orientação dentro do sistema seria reduzir exames e procedimentos — o que, na visão de profissionais e usuários, pode gerar conflito com médicos que adotam postura mais criteriosa, especialmente em pediatria, onde a margem de risco costuma ser menor e o acompanhamento clínico demanda atenção reforçada.

Prefeitura diz que decisões são “técnicas e administrativas”

Em nota oficial, a Prefeitura de Bento Gonçalves afirmou que desligamentos na rede seguem critérios técnicos e administrativos, avaliados pela Coordenação Médica. Entre os fatores citados estão:

O município ainda sustenta que possui contrato terceirizado, além de Processo Seletivo e Concurso Público, e que, nesse modelo, pode solicitar substituições “quando há necessidade de ajustes técnicos ou operacionais”.

Sobre a informação de que cerca de 50 médicos teriam deixado a rede em um ano, a Prefeitura nega e afirma que ocorre uma “rotatividade natural”, comum em redes de grande porte.

O que fica: insegurança e desconfiança

A principal crítica dos pacientes não é apenas a saída do médico, mas a falta de transparência sobre o que motivou o desligamento.

De um lado, famílias sustentam que perderam um pediatra altamente elogiado, presente em casos complexos e atento aos detalhes clínicos. Do outro, a gestão municipal reforça que segue protocolos e avaliação técnica.

No meio desse impasse, permanece um sentimento generalizado de insegurança: pais e mães temem que a rede pública esteja perdendo profissionais que fazem atendimentos mais aprofundados justamente por seguir “o que manda a medicina”, e não apenas o que cabe na lógica administrativa.