Saúde Solidariedade
Mãe doa mais de 32 litros de leite ao Banco de Leite do Tacchini
Mulher transformou a dor de ter o filho recém-nascido na UTI Neonatal em solidariedade para outros bebês que precisam.
13/01/2026 15h33
Por: Marcelo Dargelio

Um gesto silencioso, feito todos os dias, pode mudar destinos — e, no caso de Diersica de Oliveira dos Santos, moradora de Carlos Barbosa, esse gesto já se tornou um marco na história do Tacchini Banco de Leite, em Bento Gonçalves.

Mãe do pequeno Yan Benjamin dos Santos Thums, nascido no dia 28 de outubro no Hospital Tacchini, Diersica ultrapassou a marca de 32 litros de leite materno doados em pouco mais de dois meses, tornando-se uma das maiores doadoras já registradas pelo serviço. O filho segue internado na UTI Neonatal, em tratamento, e enquanto enfrenta um dos momentos mais delicados da vida, ela escolheu transformar a dor em solidariedade — ajudando a fortalecer a recuperação do próprio bebê e, futuramente, de outros recém-nascidos.

Um nascimento marcado por diagnóstico raro e tratamento intensivo

A gestação de Diersica transcorreu com tranquilidade, mas com uma preocupação constante desde o início. Com oito semanas, exames apontaram suspeita de onfalocele, malformação congênita em que órgãos abdominais — como intestino e fígado — se desenvolvem fora da cavidade abdominal, protegidos apenas por uma membrana. O diagnóstico foi confirmado na 12ª semana e todo o acompanhamento pré-natal ocorreu no Tacchini.

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Yan Benjamin nasceu por cesariana e, imediatamente após o parto, foi encaminhado para a UTI Neonatal, onde permanece internado. A mãe, mesmo em recuperação, passou a ir diariamente ao hospital para acompanhar de perto o tratamento do filho.

Produção estimulada desde o primeiro dia: “saíam só gotinhas”

Nos primeiros dias de vida, Benjamin não pôde ser amamentado diretamente. Ele recebeu nutrição por sonda e, posteriormente, pequenas quantidades de colostro. A amamentação no seio só foi possível após cerca de 20 a 25 dias.

Mesmo assim, desde o primeiro dia depois do parto, Diersica foi encaminhada ao Banco de Leite para estimular a produção.

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“No começo saíam só gotinhas, e eu cheguei a achar que não conseguiria amamentar”, relembra.

A virada aconteceu logo após a alta hospitalar. Em casa, a produção aumentou muito e passou a ser necessária extração frequente para aliviar desconfortos. Foi nesse momento que ela percebeu: além de ter leite para o filho, teria condições de doar.

Doação histórica: 32 litros pasteurizados e armazenados

O volume doado impressiona: mais de 32 litros de leite materno, que foram pasteurizados e congelados pelo Banco de Leite Humano do Tacchini. Esse leite fica armazenado e, por enquanto, está reservado exclusivamente para Benjamin até a alta hospitalar.

Mas o impacto da doação é ainda maior quando se observa o potencial coletivo: o volume já acumulado seria suficiente para alimentar todos os bebês da UTI Neonatal do Tacchini por aproximadamente 14 dias.

E depois que Benjamin receber alta, outros recém-nascidos poderão ser beneficiados diretamente pelo excedente doado.

Por que a doação de leite materno é tão importante?

A doação de leite humano é uma das estratégias mais efetivas para salvar vidas na neonatologia. Bebês internados em UTI, especialmente prematuros ou com baixo peso, muitas vezes não conseguem mamar e precisam de alimento por sonda. Nessas situações, o leite materno pasteurizado, doado por outras mães, é considerado o alimento mais seguro e poderoso.

Entre os principais benefícios do leite materno para recém-nascidos internados estão:

fortalecimento do sistema imunológico
redução do risco de infecções graves
menor chance de enterocolite necrosante (uma complicação intestinal severa)
melhor digestão e ganho de peso
apoio à recuperação clínica e ao desenvolvimento neurológico

Ou seja: leite doado não é apenas alimento — é tratamento.

“Salva vidas”: solidariedade que se multiplica na UTI

O convívio na UTI Neonatal também despertou em Diersica um sentimento que muitas mães descrevem como inevitável: empatia.

Ela vê, diariamente, mulheres que, por diversos motivos, não conseguem produzir leite suficiente para seus bebês.

“A gente vê mães que, por vários motivos, não conseguem amamentar. Poder doar nem que seja 5 ou 10 ml para cada bebê já é muito gratificante. Saber que eu tenho para o meu filho e ainda posso ajudar outros é uma sensação muito boa”, afirma.

Além disso, ela percebeu o reflexo do leite materno na própria evolução do filho. Segundo Diersica, desde que Benjamin passou a receber leite materno — ainda nos primeiros dias, pela sonda — ele não apresentou qualquer infecção.

Uma mãe que virou exemplo: “não desistam”

Em meio à rotina intensa, Diersica também se tornou uma incentivadora natural. Conversa com mães iniciantes, compartilha sua história e dá um recado forte e sensível:

“Eu quase desisti no começo, tive fissuras, achei que não teria leite suficiente. Mas as meninas do Banco de Leite me ajudaram muito. Quem puder doar, que doe. É gratificante, faz a diferença e salva vidas.”

Quem pode doar leite materno?

De forma geral, pode doar toda mãe que:

O Banco de Leite orienta sobre frascos, coleta, congelamento e entrega. Muitas vezes, a doação pode ser feita de forma simples e organizada — e com enorme impacto.

Um gesto que alimenta, protege e cura

No momento em que Yan Benjamin ainda precisa de suporte hospitalar, Diersica segue firme: presente na UTI, insistente na extração, constante na doação.

E assim, sem holofotes, ela prova que uma mãe pode sustentar mais do que o próprio filho — pode sustentar esperança em toda uma ala neonatal.