A movimentação interna do PSD em Bento Gonçalves para construir uma nominata competitiva em 2026 recoloca um personagem conhecido — e controverso — no centro do tabuleiro: o ex-vereador Moacir Camerini, atual presidente do diretório municipal da sigla e nome cogitado como pré-candidato a deputado estadual.
O retorno de Camerini ao debate político ocorre num contexto de reorganização regional do partido e de busca por “rostos com recall eleitoral” capazes de ultrapassar a barreira municipal e consolidar uma candidatura com densidade na Serra Gaúcha. Mas sua eventual volta às urnas carrega um peso específico: a memória de uma carreira legislativa marcada por presença nos bairros, enfrentamentos públicos e uma cassação histórica na Câmara.
Desde o final de 2024, o PSD vem tentando se afirmar em Bento como força real de disputa. Nas eleições municipais, lançou Paulo Caleffi à Prefeitura, que terminou em segundo lugar, com cerca de 30,5% dos votos, reforçando a percepção interna de que a legenda possui base social relevante, embora insuficiente para vencer sozinha. Foram 20.170 votos nas urnas.
Em 2026, o partido tenta converter esse capital eleitoral em projeto regional. É nesse ambiente que Camerini reaparece como alternativa natural: tem histórico de voto, capilaridade comunitária e, principalmente, é uma figura conhecida no eleitorado — ainda que polarizadora.
O próprio Camerini, em falas públicas, tem adotado um tom de cautela, afirmando que a confirmação depende de “ajustes pessoais” e que seguirá como “soldado do partido”, concorrendo ou não.
Natural de Bento Gonçalves, Camerini construiu sua trajetória política a partir de funções de base e presença comunitária — um estilo mais associado ao varejo eleitoral do que à política institucional de gabinete. Antes do auge, passou por espaços como o Conselho Tutelar e funções no Executivo municipal — trajetória que, para aliados, reforça seu discurso de ligação com temas sociais, sobretudo saúde e educação.
O salto veio com a eleição ao Legislativo: Camerini exerceu dois mandatos como vereador, período em que ganhou visibilidade e ampliou a atuação pública, inclusive com uso intenso de redes sociais e comunicação direta com apoiadores.
Em 20 de dezembro de 2019, a Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves cassou o mandato de Camerini por 12 votos a 3. O julgamento foi realizado em sessão extraordinária e o então parlamentar foi acusado de disseminação de notícias falsas e conduta incompatível com o decoro — episódio que, à época, se tornou um dos fatos políticos mais marcantes do Legislativo municipal.
A cassação teve origem na chamada CPI das Fake News dentro da Câmara. O processo político-legislativo alimentou por meses a tensão entre blocos no Legislativo e dividiu opiniões na cidade — com uma ala defendendo punição dura e outra apontando perseguição política e excesso punitivo.
Após a cassação, Camerini passou a sustentar publicamente que foi vítima de perseguição e que a medida não guardava relação com corrupção ou desvio de recursos, mas com disputas internas e conteúdo veiculado em ambiente digital.
Mesmo sob desgaste, Camerini buscou manter presença pública.
Em 2020, concorreu à Prefeitura (na época filiado a outra sigla) e tentou usar o discurso do “injustiçado” como combustível eleitoral, apostando em redes sociais e em agenda de bairros. Colunistas e veículos locais da região acompanharam essa movimentação como tentativa de sobrevivência política.
O fato é que, com o tempo, Camerini deixou de ser apenas “o vereador cassado” e passou a ser “o político que quer voltar” — uma mudança sutil, mas importante no marketing político.
Em 2025, Camerini assume a presidência do PSD em Bento Gonçalves, numa sinalização clara de que seu retorno não seria apenas individual, mas estruturado dentro de partido com envergadura estadual e nacional. A presidência partidária tem um efeito prático: dá a ele controle das articulações locais, influência sobre nominata e capacidade de se tornar “o nome natural” do PSD para 2026, caso o partido decida ter candidatura própria forte para deputado estadual.
É um reposicionamento inteligente: sai do papel de figura reativa (defendendo-se da cassação) e entra no papel de dirigente (organizando o partido).
Se confirmar a candidatura, Camerini enfrentará um paradoxo típico da política contemporânea:
A cassação pode ser um passivo, porque reativa no eleitor uma lembrança de punição pública e embate institucional.
Mas a cassação também pode ser um ótimo ativo, caso seja convertida na narrativa do “perseguido”, do “outsider” ou do político “combatido pelos poderosos”.
A depender do clima político nacional e estadual, histórias de conflito institucional podem render voto — especialmente em eleitorados cansados da política tradicional, onde o confronto vira credencial.
No desenho descrito por lideranças locais do partido, Camerini poderia contar com apoio político regional, inclusive com menções ao ex-prefeito de Passo Fundo, Luciano Azevedo (PSD), também colocado como pré-candidato a deputado federal no RS.
Essa amarração importa porque a eleição proporcional exige voto pulverizado e base regional ampliada. Para um nome de Bento, o desafio é clássico: sair do “voto da cidade” e ganhar tração em municípios vizinhos com discurso de infraestrutura, saúde regional, mobilidade e desenvolvimento econômico.
O eventual retorno de Moacir Camerini ao protagonismo político não é apenas a história de um nome que tenta reocupar espaço: é um teste sobre como o eleitorado de Bento Gonçalves e da Serra interpreta o passado recente — e como a política local lida com personagens que caem, voltam e tentam se reinventar.
Se 2019 marcou o fim abrupto de uma trajetória legislativa, 2026 pode representar o oposto: a tentativa calculada de transformar a maior crise do currículo numa escada eleitoral. E isso, na política gaúcha, costuma funcionar mais vezes do que se admite em público.