Morreu neste sábado (10), aos 92 anos, o novelista Manoel Carlos, um dos nomes mais influentes da história da televisão brasileira. Conhecido popularmente como “Maneco”, o autor marcou gerações com tramas centradas nas relações familiares, nos dilemas morais e no cotidiano da classe média urbana — especialmente do Rio de Janeiro, cenário constante de suas novelas.
A causa da morte não foi detalhada publicamente, mas veículos apontam que ele enfrentava complicações relacionadas à doença de Parkinson.
Manoel Carlos se tornou uma espécie de “cronista” das emoções brasileiras ao transportar para a TV o drama cotidiano de famílias, casais e amigos, geralmente inseridos em um universo de privilégios, mas também atravessados por crises afetivas profundas.
Seu estilo ficou reconhecido por diálogos longos, densos, íntimos e realistas, com forte apelo emocional. Nas tramas, temas como maternidade, amor, traição, juventude, desigualdade social e doenças graves passaram a ser tratados com naturalidade — algo que contribuiu para elevar o papel social da telenovela no país.
Uma das maiores marcas do autor foi o uso recorrente de uma protagonista chamada Helena — nome que virou praticamente uma assinatura artística.
Em diferentes versões, Helena representou mulheres fortes, sensíveis e contraditórias: mães, amantes, profissionais, figuras centrais em enredos que misturavam romance e tensão familiar. O próprio autor explicou que a inspiração veio do simbolismo da personagem histórica e mitológica Helena de Troia.
Com uma carreira marcada por obras consagradas, Manoel Carlos assinou alguns dos maiores sucessos do horário nobre e também produções que se tornaram referência cultural.
Entre os títulos mais lembrados estão:
Considerada uma de suas novelas mais icônicas, trouxe um dos momentos mais comentados da teledramaturgia: o sacrifício de uma mãe pela filha — núcleo que virou símbolo da intensidade das obras de Maneco.
Novela de enorme repercussão, ficou marcada pelo drama de Camila, personagem que enfrentava leucemia e mobilizou o Brasil com cenas emocionantes — incluindo o ato simbólico de raspar a cabeça, que gerou comoção nacional.
Outro fenômeno popular, reuniu diferentes núcleos e debates sociais, como violência doméstica, preconceito e conflitos geracionais.
A obra reforçou o estilo do autor, ao tratar de abandono, maternidade e intolerância, com narrativa marcada por reflexões e cenas cotidianas de forte apelo humano.
Foi marcada por um momento histórico: a escolha de Taís Araújo como a primeira Helena negra do autor, marco simbólico para a televisão brasileira.
Mais do que um roteirista, Manoel Carlos se firmou como um autor que moldou o modo como o Brasil passou a entender e consumir novela: como entretenimento, mas também como espelho social.
Nas últimas décadas, suas novelas ganharam força justamente por unir duas dimensões que raramente caminham juntas com equilíbrio:
Esse equilíbrio fez dele um dos principais pilares da dramaturgia nacional.
A morte do autor deixa um vazio na dramaturgia, mas também reforça a permanência de suas obras, reprisadas diversas vezes e ainda lembradas por bordões, personagens e cenas que entraram para o imaginário popular.
Manoel Carlos se despede como um dos grandes arquitetos da telenovela brasileira — o escritor que transformou a sala de estar do país em um espaço de conversa sobre amor, culpa, perdão e família.